Lição para Bettencourt
Acabou a ligação de Paulo Bento ao Sporting. Finalmente! Com a coragem que sempre caracterizou a sua passagem pelo clube, o treinador admitiu, na hora do adeus, que esteve 4 meses a mais no posto. Concordo! Aliás, no artigo que publiquei cerca de 2 horas antes de se saber da demissão, defendia que este era o único caminho possível. Bento já nada podia fazer pela equipa ou pelo clube. Pura e simplesmente estava a desgastar-se; a perder o respeito de alguns que, no passado, o apoiaram; a prolongar uma agonia que, mais tarde ou mais cedo, teria de acabar assim. E, já agora, a atrasar aquilo que a sua carreira precisa: um projecto diferente (provavelmente no estrangeiro), onde tenha de ser apenas treinador.
A demissão, o discurso no momento da partida e o facto de ter abdicado de verbas que legalmente poderia exigir fazem com que tenha de elogiar a postura do cidadão Paulo Bento, que sempre disse poder perder o emprego, mas jamais os valores em que acredita. Tardou em demonstrá-lo, é certo, mas comprovou-o ao avançar, pelo seu próprio pé, para a porta da saída enquanto outros, com tantas ou mais responsabilidades, continuavam a assobiar para ao lado, como que aguardando uma solução mágica para os muitos problemas do clube. Curiosamente, horas depois, a consciência obrigou outros a resignar. Terão sido os suficientes? Duvido...
Não tenho dúvidas que, enquanto treinador, Bento cometeu vários erros na sua passagem por Alvalade, mas continuo a pensar que não foi ele, na maioria dos casos, o principal responsável pelos problemas. Bento foi muitas vezes o presidente do clube, o director desportivo, o director de comunicação e muitas outras coisas. Num clube com tantos órgãos executivos e consultivos, nunca percebi a necessidade do treinador ter de desempenhar tantos papéis. Mas, verdade seja dita, se ele não o fizesse, provavelmente ninguém o faria. Ter cargos é uma coisa, mas assumi-los é outra bem diferente. E na estrutura leonina, de há uns anos a esta parte, falta quem trabalhe a sério em prol do clube.
A ausência de um bloco dirigente forte, juntamente com a falta de dinheiro, é o grande problema do Sporting. O núclero duro que se instalou em Alvalade na última década mexe e remexe, mas a falta de orientação coerente e de coragem é uma constante. Exemplo maior? Paulo Bento teve de dizer basta porque, para Bettencourt, pelos vistos, o Sporting ficaria assim... "forever".
Na hora do adeus, Bento deu uma verdadeira lição a Bettencourt que, enquanto líder, sai bastante fragilizado de todo este processo. Não foi para ficar impávido e sereno que os sportinguistas o colocaram na cadeira do poder. Nem tão-pouco para, de vez a vez, passar raspanetes a todos os que, sendo igualmente apaixonados pela mesma causa, não concordam com o caminho escolhido pelos responsáveis.
Nem na hora do "divórcio", Bettencourt foi capaz de exibir um discurso digno de um presidente. Voltou a criticar o sportinguismo de alguns, insistiu nos recados para (presume-se) alguns dos seus pares nos órgãos sociais e continuou a elevar Bento à fasquia de herói, reafirmando que jamais o demitiria. Se isto foi assim com um treinador que só conseguiu ser segundo na Liga (peses os sucessos noutras provas), imagino o que teria acontecido se sob a sua batuta o clube tivesse sido, uma vez que fosse, campeão. No mínimo, teria direito a uma estátua ou a nome no Estádio... Mas, vá lá, nem tudo foi mau. Bettencourt, verdade seja dita, podia ter recusado o pedido de demissão do treinador, obrigando-o a cumprir o contrato até ao fim!
PS - Com a complicada deslocação a Vila do Conde no horizonte (nesta altura, todas as partidas são finais para o clube) - que pode atirar o Sporting para uma posição impensável na classificação -, os responsáveis têm, agora, de pensar num substituto para Bento. E essa, seguramente, será outra valente dor de cabeça. Um estrangeiro parece-me a opção mais segura, até porque não vislumbro, de momento, um português disponível com a estaleca necessária para entrar numa missão tão espinhosa. E embora a aposta num não-português possa ditar um período "às cegas" até o escolhido estar minimamente identificado com o clube e com o futebol português, não vejo outra opção.
