Lições de vida nos golos de Aboubakar
O futebol não interfere nos mais sérios problemas do dia-a-dia mas é um bom espelho do meio em que vivemos. Desprestigiado com preconceito, ignorância e desdém por quem não valoriza um fenómeno de massas esclarecedor de muito do que somos, é também fonte inesgotável de felicidade e bem-estar. Numa sociedade destruída pela fome, pela miséria, pelo desemprego, pela ausência de valores e pela insensibilidade social escandalosa de governantes indignos da nossa confiança, há jogadores que são bandeiras de paz em campos de batalha onde os escrúpulos não são prioritários. Vincent Aboubakar é uma dessas figuras que nos reconciliam com o Mundo e nos emocionam: sendo mero futebolista do FC Porto, é um homem a sair vitorioso de luta que parecia destinado a perder. E isso basta para torná-lo especial.
Ao contrário de parceiros do mesmo ofício, para quem o golo é autoestrada que conduz à loucura inexplicável de uma alegria perfeita e descontrolada, Aboubakar ajoelha-se, olha para o céu e agradece ao deus em que acredita e ao qual presta contas. Sendo jovem (23 anos), trava a euforia comum a tantos homens feitos que não resistem a comemorações mais próprias de adolescentes em transe. Para ele, o golo não é um ato isolado, fruto dos maus instintos de quem, na impossibilidade de jogar como os artistas, se vinga com a eficácia dos tiros com que fustiga os adversários. Frente ao V. Setúbal, ao cabo de sete jogos em jejum, desbloqueou um jogo que o acerto defensivo sadino, a imperícia portista e o passar do tempo (já tinham decorrido 70 minutos) estavam a elevar para níveis de dificuldade insuperáveis. O modo como reagiu à explosão que provocou no estádio remeteu para o sofrimento e o apego divino que gera afeto, incluindo entre as vítimas do gesto fatal.
Aboubakar tem a imagem do distraído entre carrascos sem pudor. É um rapaz bem formado, gentil, sensível, que parece estar apenas a cumprir o dever de escapar ileso à fúria dos defesas, dando linhas de passe aos companheiros que surgem de trás. Tudo mentira. No fundo, bem lá no fundo, é um assassino como os outros, com a diferença de que mata com luvas brancas, sem suscitar revolta pelos crimes sobre os predadores que pisam os mesmos terrenos e cuja tarefa é aniquilá-lo a qualquer preço. Não a tiro, como ele faz, mas com pancadas e castigos em forma de golpes sucessivos que vão deixando marcas no espírito e principalmente no corpo. Vale-lhe a arte de bem manejar a velocidade; a técnica superior, expressa na relação que mantém com a bola e no modo como reage a qualquer circunstância inesperada do jogo; a inteligência posicional e o pontapé temível a curta, média e longa distância. De costas tem dificuldades em participar nos bordados de aproximação à baliza, mas quando recebe de frente é um fenómeno. Tudo pode acontecer e o golo é sempre uma possibilidade.
O fogo do camaronês não leva agregado o odioso do pistoleiro implacável, despojado de sentimentos, que se impõe apenas porque tem arma, pontaria e o espírito criminoso de quem só é feliz a disparar. Os golos de Aboubakar são um fogo-de-artifício de emoções, consequência de muito trabalho, dedicação, compromisso, orgulho e, como já concluímos, algum sofrimento. São lições de vida: de sobrevivência e superação; de instinto felino e inclemente mas também de ternura pela autenticidade com que se impõe em terrenos cheios de minas e armadilhas. Para quem não podia aspirar a mais do que ser suplente de Jackson Martínez e não tinha condições para comandar o ataque de uma grande equipa como o FC Porto, está a dar resposta veemente que põe tudo no lugar. Há sempre uma grande história quando só o alvo da desconfiança generalizada acredita no seu triunfo. O filme pode até chegar aos Oscares se a razão estiver do seu lado. E, neste caso, está.
Não será fácil tirar dali o miúdo
Quem o conhece bem afirma, desde o início, que estamos perante um fenómeno
Gonçalo Guedes não confirmou logo as expectativas de quem o acompanha há algum tempo – e, não nos esqueçamos, tem apenas 18 anos. Mas o jovem encarnado está a ganhar confiança e, a cada jogo que passa, abre uma página do livro onde guarda todo o temível arsenal de armas que faz a diferença. Carcela em ascensão está de fora; Salvio tem ainda para dois ou três meses. Não vai ser fácil tirar dali o miúdo.
Ricardo Esgaio teve boa resposta
As explicações para as vitórias nem sempre estão nos efeitos mais óbvios
Esgaio foi chamado a meio da viagem. Rendeu Jefferson, adaptou-se a defesa-esquerdo e, numa situação muito difícil para a equipa, não só fez esquecer o titular como ainda melhorou a qualidade do futebol. Não telefonou para a família, não se queixou ao empresário, não discutiu com o treinador. Ouviu, entendeu as instruções, foi lá para dentro e cumpriu. O futebol é fabuloso quando os jogadores o simplificam.
Neymar já valeu todos os milhões
Já se perderam as contas ao negócio assinado entre o Santos e o Barcelona
Neymar, jovem com uma carreira pela frente, está a bater todos os recordes da seleção brasileira e a demonstrar na Europa que é um dos expoentes do futebol mundial da atualidade. Já lá vai o tempo em que poucos apostavam, um cêntimo que fosse, no seu êxito em Camp Nou, ao lado de Messi e companhia. A cada dia faz por valer os milhões que custou. O declarado e o que passou pela porta do cavalo.
