Lopetegui manda e Jesus quer mandar
A UEFA quer fazer passar a ideia de que os treinadores e as suas ideias são importantes para o futebol. Mas... que autonomia têm hoje os treinadores, num futebol cada vez mais vergado às lógicas dos negócios, alavancados por “players” que têm hoje uma relevância anteriormente nunca observada?
São muito poucos os treinadores, na Europa e do Mundo, que conseguem actualmente fazer prevalecer as suas ideias sobre as equipas de dirigentes, dominadas – com honrosas excepções – por empresários, superempresários, investidores ocasionais, alguns dos quais fugidos à Justiça nos respectivos países.
No futebol não há “dinheiro bom” nem “dinheiro mau”. O dinheiro tem todo a mesma cor, e isso cria desigualdades que entram em choque, até, com a verdade desportiva. A industrialização do futebol foi roubando genuinidade ao jogo e aos seus intérpretes e, hoje, todos se acotovelam no sentido de não falharem oportunidad€s. Aquela ideia de comunidade societária, com base na agregação de adeptos, depois sócios, depois accionistas e, agora, investidores não tem nenhuma adesão à realidade. É um slogan. É – como dizer? – falsa publicidade. O futebol gera, mesmo assim, tantas paixões que os adeptos continuam a sentir-se “proprietários” dos clubes. Vibram como se eles fizessem parte da sua cadeia de comando. A verdade é que, por mais dolorosa que seja a asserção, os sócios mandam muito pouco, e vão continuar a mandar muito pouco enquanto se mantiver esta tendência suicida de se considerarem “geríveis” passivos acima dos 400 milhões de euros...
Os próprios clubes, enquanto pessoas colectivas de direito privado, estão hoje expostos a um conjunto de variáveis que os seus associados não podem nem conseguem controlar, nem sequer os próprios órgãos sociais, transformados em órgão... fantoches. É evidente que esta descapitalização do associado e da perda de força dos dirigentes eleitos é uma consequência dos erros de gestão que se acumularam nos últimos anos, aos quais se junta a falta de regulação, à semelhança, aliás, do que acontece com as entidades bancárias e, afinal, com o País. Isto acontece porque o futebol, não estando sozinho, abusou sempre de um estatuto de excepção para quase tudo, principalmente no que diz respeito à capacidade de gerar dívida (sobre dívida).
No meio deste turbilhão, os clubes estão pobres, e outras entidades/personalidades estão mais ricas porque raramente houve a preocupação de preservar a identidade dos clubes, defendendo os seus interesses (reais) acima de outros interesses. Os clubes estão cada vez mais permeáveis perante interesses externos. E às vezes é internamente que se alavanca e potencia o interesse externo. No que diz especificamente ao futebol português, entre os clássicos DDT (Donos Disto Tudo), irrompeu um “player” que assume hoje uma “prevalência política”, de influência objectiva sobre o jogo e os seus tabuleiros, acima da “prevalência negocial”. Esse “player” chama-se Jorge Mendes, que conseguiu colocar-se numa posição de grande relevo no panorama nacional e internacional – e é bom não esquecer que o “FC Porto de Mourinho” representou uma decisiva rampa de lançamento para a emancipação, com o Benfica mais recentemente à espreita...
Tudo isto para dizer que, se os clubes têm pouca força (os fundos vieram fragilizar ainda mais essa identidade societária), os treinadores são hoje condicionados por um nível de instrumentalização que, às vezes, até causa dor...
Marcelo Bielsa, treinador do Marselha, queixava-se recentemente de ter sido enganado pelos dirigentes do seu clube, uma vez que contrataram 12 jogadores sem o consultarem. Apelidou o projecto de “uma mentira” e não se vê que tamanha sinceridade possa ter um final feliz.
No FC Porto, está a ocorrer um fenómeno de matriz inversa, depois de muitos anos em que os treinadores se encaixavam na política da SAD. Foi dado todo o poder a Lopetegui e é ele quem indica os jogadores a contratar. Lopetegui manda – e isso é, acima de tudo, a confissão da falência de um modelo.
No Benfica, entre boas aquisições e aquisições falhadas, jogadores que chegam e logo partem e indefinições relativamente à formação, não está definido o centro de poder. Jesus quer mandar e manda. A equipa joga com quem ele quer, independentemente de quem “aterra” no “aeroporto” da Luz. Vieira vai gerindo as coisas (para ter Jesus), mas para um treinador há tantos anos no Benfica já poderia ter sido possível estabelecer uma clara política para o futebol. Ou será que os clubes já se entregaram perante a “inevitabilidade” de... já nem controlarem nada, nem os seus próprios passivos?!
JARDIM DAS ESTRELAS - ***
Renovação – sim ou não?
Amanhã, Portugal joga com a Albânia, no primeiro jogo (oficial) pós-Mundial. O tema que ora se discute é a renovação. Sim ou não? Há um processo de intenções na FPF, mas não é certo que esse processo esteja na cabeça do seleccionador. A primeira convocatória teria sido uma grande oportunidade para mudar mais profundamente a Selecção. Não se trata de ingratidão face aos que foram “incompetentes” no Mundial e competentes no último Europeu. Não se trata de mudar por mudar. O Mundial foi claro num sentido: há jogadores que acrescentam pouco à Selecção. Na mentalidade, na disponibilidade, no rendimento. Temos, no entanto, um seleccionador (jovem) conservador. E quem é conservador não gosta de mudar. Dir-se-á que não há grandes alternativas e que a Selecção é um espelho do que se passa nos clubes. Meias verdades. Em muitos casos, falta coragem de quebrar os estereótipos. Ainda há muito a ideia de que os jogadores têm de pertencer aos “grandes” ou jogar no estrangeiro para poderem merecer uma chamada à Selecção. No caso concreto do jogo de amanhã, faria sentido ver alterações no “onze”, com um meio-campo refrescado (William Carvalho, Adrien e André Gomes são boas soluções). Vezo, Tiba e Bruma batem à porta. Até onde irá a renovação de Paulo Bento? E quando os lesionados regressarem?...
