Lost in translation

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Desculpem o inglês. É o título de um filme imperdível de Sofia Coppola. Passa-se em Tóquio e conta-nos um flirt nunca concretizado entre duas pessoas perdidas. De um lado, um velho ator (Bill Murray); do outro, a jovem mulher de um fotógrafo (Scarlett Johansson). Para aqui, o enredo interessa pouco. Interessa o absurdo como, para estes dois norte-americanos, o cenário japonês aparece.

Como se as coisas mais simples e os gestos mais banais que tomamos como compreensíveis para qualquer ser humano fossem inexplicáveis. Os “deles” e os “nossos”. Ter “mundo” é saber que o que nos parece óbvio raramente o é. Diz-se que traduzir é trair. Porque não basta pegar em palavras e procurar o seu correspondente noutra língua. É preciso conhecer o contexto e a história. E há palavras, hábitos, costumes e valores que não têm correspondência noutras culturas. Que se perdem na tradução.

Lembro-me de Toni explodir, de forma bastante cómica, numa conferência de imprensa, no Irão. Agora foi a vez de Vítor Pereira. Quando o treinador português comentava a derrota do seu Al Ahli frente ao Al Ittifaq, quis fazer o número habitual: dizer mal do árbitro e de um jogador da equipa adversária. Inesperadamente, foi interrompido pelo assessor de imprensa, que lhe explicou que só podia abordar questões técnicas. Atónito, Vítor Pereira “passou-se” e, no meio duma algaraviada, perguntou: “Não estamos num país livre?” Devia saber que não. E por isso acontece ali uma coisa impensável aqui: o assessor de imprensa presente não era do clube, mas nomeado pela Federação de Futebol da Arábia Saudita. Por isso, a resposta à sua pergunta – “o senhor é polícia?” – deveria ter sido “sim”. Para os árabes, pôr em causa a autoridade vigente de forma tão desabrida é incompreensível. A Federação pediu desculpas ao treinador. O treinador disse que foi um acontecimento pontual e que é bem tratado. Mas a verdade é que, apesar de Pereira viver na Arábia Saudita, perdeu qualquer coisa na tradução. Agora, ficou a saber que, até para um treinador, faz diferença viver num país livre ou num país que não o é. Que a liberdade de expressão não é um valor garantido. E que até no futebol globalizado as diferenças culturais atrapalham.

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