Lugares perigosos
Talvez reflexo de uma sociedade europeia cada vez mais dividida, onde não há espaço para nada entre o preto e o branco e que banalizou um sentimento extremo como o ódio, os estádios de futebol são cada vez mais ruas escuras que escondem criminosos, locais onde não queremos ir e muito menos levar os nossos filhos. Desde o último dérbi de Lisboa que Portugal tem discutido tarjas e mensagens de adeptos que vangloriam mortes de pessoas. A discussão tornou-se básica, com o argumento infantil de "eles é que começaram" - e se foram "eles" que começaram, então vale tudo.
Em Portugal, parece claro que a tendência será piorar este clima de guerra até que haja de facto uma guerra, com feridos e mortes como nas guerras a sério. Já os houve e não foi assim há tanto tempo, mas a memória dos homens é demasiado curta quando o fanatismo toma conta deles.
Olha-se para o lado e percebemos que o problema não é só nosso. Há pouco tempo, alguns adeptos do Standard Liège acharam engraçado levar para a bancada um desenho onde se cortava à machadada a cabeça de um jogador rival. Esta semana, o governo grego foi obrigado a suspender o campeonato devido a mais uma batalha num dos dérbis de Atenas. Na Liga Europa, houve pelo menos dois jogos que foram interrompidos devido a problemas com espectadores - o Feyenoord-Roma e o Dínamo Kiev-Guingamp. Soma-se a isto a tarja gigante no estádio do Bayer Leverkusen a chamar "assassinos" e "filhos da p..." à claque do Atlético de Madrid para perceber que este ódio não tem fronteiras, nem se explica só pela história.
Por muito que se peça a intervenção do estado, das autoridades e dos órgãos disciplinares do futebol, a verdade é que o problema está enraizado na sociedade e não desaparecerá de um momento para o outro. Fecham-se os estádios? Tiram-se pontos às equipas? A UEFA e as federações têm-no feito e, como vemos, os problemas agravam-se. Colocamos um polícia por espectador nas bancadas? E quando isso não chegar? Porque haverá um dia em que nem isso vai chegar. Este ódio está lá porque sim - e não há nada mais difícil de combater do que um sentimento sem razão.
