Luís Filipe Vieira perdeu a memória?

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Luís Filipe Vieira perdeu a memória?
Luís Filipe Vieira perdeu a memória?

Em Junho de 2013, depois de um desentendimento entre o administrador portista Adelino Caldeira e o presidente dos leões, Bruno de Carvalho, o Sporting cortou relações institucionais com o FC Porto e deixou bem claro, em comunicado, que “nunca seriam toleradas posições de subserviência relativamente a nada nem a ninguém”. Pareciam estar reunidas as condições para os dois históricos de Lisboa se aproximarem.

Chegaram a existir sinais nesse sentido, mas depois do Benfica-Sporting de Fevereiro deste ano, marcado pelo episódio-da-lã-de-vidro e do adiamento do dérbi, Vieira e Bruno de Carvalho acentuaram as divergências. Mais uma vez, o futebol português cedia às dinâmicas de sempre, isto é, à lógica segundo a qual dois grandes podem estar juntos, por interesses pontuais e conjunturais (como é o caso), mas nunca os três. E isso é uma desgraça.

Vivemos um momento de ajustamento a uma nova realidade sócio-económica, decorrente de uma crise profunda, que atingiu alguns pilares da “estrutura financeira” do país. Parece que ninguém deu conta, mas Portugal foi atingido por um furacão que destruiu instituições, relações, poderes supostamente indestrutíveis, ideias feitas. Os políticos não querem declarar “estado de emergência” porque há muito comprometimento das máquinas partidárias em tudo o que se passa e o futebol também não o quer fazer, mas a situação, nos dois campos, exigiria um inabalável “pacto de regime”. O sentido de responsabilidade deveria ter obrigado o FC Porto, o Benfica e o Sporting a interpretar os sinais da situação de emergência e a declarar, publicamente, que o momento não é para “brincadeiras e fungagás” e, por isso, independentemente das rivalidades, chegara a hora de defender o negócio e o futebol português no seu todo.

Éevidente que isso seria mais fácil se o sistema de organização do futebol português tivesse tido a capacidade de gerar, nos últimos anos, um líder forte, um presidente da Federação – o topo da hierarquia – capaz de entender a premência de uma operação desse tipo. O problema é que o actual presidente da Federação (Fernando Gomes) é também um produto das guerras de alecrim e manjerona que dominam há muitos anos o tecido futebolístico nacional. Um dissidente do FC Porto que o Benfica soube capitalizar e potenciar em seu benefício.

Quer isto dizer que, quando chegam as eleições, quer para a FPF quer para a Liga, o que está sempre presente – mais do que as grandes questões colocadas ao futebol, no presente e no futuro – é a defesa de uma das partes. Foi o que aconteceu agora, neste lamentável processo que vai conduzir Luís Duque à Liga. Uma das partes, a mais forte, representada por FC Porto e Benfica, que se uniu para esse efeito, fez um ajuste de contas. Para atingir Bruno de Carvalho e, consequentemente, o Sporting.

Dir-me-ão, em contraponto: mas esse entendimento a três, assumido oficial e publicamente, pelas razões já explicadas neste artigo, nunca seria possível. Repito: seria possível num quadro de assumido “estado de emergência” e se o futebol português tivesse um líder forte (na Federação). Mais: estou convicto de que essa tarefa, com Pinto da Costa na presidência do FC Porto, seria interpretado pelo próprio como uma ofensa e um ataque à génese da sua estratégia de longos decénios.

Então era isso que o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, deveria ter assumido como ponto de honra. Não havendo condições para um “pacto de regime”, nada nem ninguém poderia afastar Vieira de um caminho de coerência. Não foi Vieira e o Benfica que, antes do aparecimento em cena de Bruno de Carvalho, mais atacaram o FC Porto e Pinto da Costa? Não foram o Benfica, Vieira e os seus conselheiros que caracterizaram e colaram o “sistema”, no seu lado mais perverso, à figura de Pinto da Costa?

As convergências e divergências não têm de ser eternas, mas o que aconteceu afinal de substancial para aproximar, mesmo que seja à distância de duas cabeceiras, Vieira de Pinto da Costa? Que projectos foram discutidos entre as duas personalidades e os dois clubes? Que novas ideias? Alguém sabe? Já que, nesta altura, não há condições para que nenhuma das partes fique com o bolo inteiro, então talvez seja melhor – é esse o raciocínio?! – partir o bolo ao meio em vez de o cortar às fatias, com três partes do bolo partidas de forma mais generosa. Não há nenhuma elevação nem sinceridade neste processo. É verdade que Bruno de Carvalho e, por arrastamento, o Sporting também contribuíram para que este cenário se implantasse. Há baixa política, hipocrisia e fraquíssimo sentido de responsabilidade. E há, principalmente, muita falta de memória.

Duque deixou-se apanhar neste lamentável turbilhão (vide “O Cacto”).

JARDIM DAS ESTRELAS

Jonas... para somar

Rodrigo levou tempo de mais a ser substituído no Benfica. Uma solução consolidada só poderia ser rendida por uma solução “definitiva”. Jonas “fechou” com o Benfica uma semana depois do envio para a UEFA da lista de jogadores em condições de alinhar na Champions. Faltava ali uma solução credível, que Jesus potenciou com Talisca. Mas era... “curto”. Bem sei que Jonas apareceu na Covilhã, num teste de média dificuldade, mas aquilo que ele mostrou já evidenciara no Valencia: toque de bola, mobilidade, integração no colectivo, capacidade finalizadora. Jonas é para somar e teria dado um jeitão na Liga dos Campeões.

O CACTO

Envenenado

Luís Duque é um dirigente desportivo com larga experiência no futebol, conhece os protagonistas, tem uma rara capacidade para estabelecer pontes a montante e a jusante. Está no seu direito achar que reúne as condições necessárias para

poder ser “o presidente de todos os clubes profissionais”, mas é evidente que foi usado para ser uma arma de arremesso contra o seu clube, com o qual se acha em litígio. Todas as suas decisões, neste quadro, serão difíceis e passíveis, até, de apreciações injustas. Outros ex-dirigentes (presidentes) sportinguistas recusaram e fizeram bem. Duque fez mal.

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