Madaíl e o crime perfeito
1 Raras vezes a leveza foi tão longe como nestes quatro meses de discurso mal articulado; de intenções dispersas e palavras sem sentido; de imagem exterior frágil na defesa de um projecto afinal inexistente. Foram quatro meses perdidos – e disso temos agora a certeza absoluta – a retocar um cenário fictício que serviu apenas para desviar atenções de lutas nos bastidores, não para reagir com seriedade ao desastre do Mundial 2002; não para encarar com urgência o Euro-2004, mas para gerir jogos de poder e atrasar decisões fundamentais que dizem respeito ao País inteiro. Neste processo em que dependência e inconsciência continuam a viajar de mãos dadas, tivemos logo direito a um facto consumado: o seleccionador nacional seria português. No dia marcado para ouvirmos finalmente um nome, tinham afinal outra coisa para nos dizer com a mesma convicção: o seleccionador nacional será estrangeiro.
2 Josef Szabo, Alejandro Scopelli, Fernando Riera, Otto Glória, Bela Guttmann e Sven-Goran Eriksson são apenas a expressão máxima da dívida que o futebol português tem para com treinadores estrangeiros. Eles explicam parte do percurso que une o Sporting dos violinos à nova geração, sem perder de vista a introdução do profissionalismo, as inovações tácticas, os títulos europeus, o desmascarar da mentira dos 30 metros que faltavam para atingirmos competitividade à escala europeia e mundial. Por isso, o inaceitável na decisão federativa não está na compreensível amargura dos treinadores portugueses, nem em qualquer manifestação de patriotismo descabido. Escândalo é regressar à estaca zero ao cabo de quase cinco meses; perigosas são as concessões admitidas para recuperar agora o tempo desperdiçado.
3 A contratação de Scolari está presa pelo apoio financeiro de dois patrocinadores. Muitos dirão, resignados, que é um sinal dos tempos; outros, habituados ao insuportável discurso de investimentos, activos, passivos, SAD e restante linguagem bolsista, nem vão perceber a diferença entre a lógica de uma empresa e o significado de uma representação nacional; outros, felizes pelo fim da saga, limitar-se-ão a desejar muita sorte. Oxalá não seja apenas o instinto de sobrevivência de um homem em dificuldades. Ao cabo de meses a fio impotente para tomar decisões em tempo útil, Madail confirmou, por omissão, a inexistência de projecto para a selecção e limitou-se a sugerir que está prestes a dar uma prenda aos portugueses: o treinador campeão do Mundo. Ou está tudo doido ou o crime perfeito existe e está encontrado o primeiro vencedor do Euro-2004, o único elemento da engrenagem a não depender de resultados.
4 Felipão devia fazer uma pergunta à partida ("fui escolhido só por ter sido campeão do Mundo?") e se verificar que a resposta é afirmativa tentar ser simpático ("adeus e obrigado pela atenção.") Mas como nada disso é viável, prepara-se para a grande viagem suportado na glória recente de um palmarés pouco expressivo, desenquadrado da orgânica, dos parâmetros técnicos e das soluções tácticas defendidas pela instituição que vai representar. Agostinho Oliveira é já apontado como seu braço direito. Corre assim o risco de não corresponder aos motivos do consenso gerado à sua volta, à quase unanimidade assente em alicerces de competência indiscutível. Foi visto como fiel depositário de uma ideia e elo de ligação à memória colectiva de um trabalho a caminho dos vinte anos – não pode, por isso, permitir que o reduzam à imagem de quem pretende apenas sobreviver na estrutura. Uma referência para Manuel José: provou que a independência e a coragem intimidam. Sobretudo neste reino dominado pela mediocridade.
