Mais um escândalo para a colecção

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Mais um escândalo para a colecção
Mais um escândalo para a colecção

A despromoção do árbitro internacional Marco Ferreira e as pífias reacções que se seguiram à revelação da classificação da época 2014/15 provam que o sector da arbitragem está doente e o futebol português incapaz de resolver o seu maior problema: a falta de credibilidade do dirigismo desportivo.

A arbitragem é um universo nubloso, opaco, com normas e regras que ninguém entende (como esta de o nomeador não estar a par das classificações parciais dos observadores), perante o qual querem que se aceite o princípio da reserva e da ausência de explicações, à medida das seitas e das organizações secretas.

Todos querem controlar o sector da arbitragem, porque as equipas (de arbitragem) são confrontadas com inúmeras situações num jogo de futebol e, em função dos meios que (não) têm à disposição – no sentido de poderem produzir boas decisões –, e ainda perante a subjectividade das leis do jogo, assinalar ou não uma grande penalidade; assinalar ou não um fora-de-jogo milimétrico fica sempre dependente do critério do árbitro. E o critério é algo que pode ser "trabalhado".

Assinalámos vezes sem conta que este é o maior paradoxo das sociedades civilizadas: todos somos escrutinados até à medula, ninguém é dado como "culpado" ou "responsável" sem passar por um filtro e, numa actividade que faz movimentar milhões e milhões de euros, o efeito das decisões dos árbitros é instantâneo e rapidamente homologado e, mesmo quando há a percepção de que o erro é grosseiro, a decisão está tomada e não há nada a fazer. Há maior logro do que este? Não se trata de um violentíssimo atentado à inteligência e à verdade desportiva? No futebol, uma equipa pode ser condenada à "sentença de morte", porque… sim?!!! Mas que dirigismo é este que aceita uma barbaridade destas sem espernear, sem se manifestar, colectivamente, em nome da defesa de um princípio (salvaguarda da integridade das competições e da verdade desportiva) e só o faz quando, pontualmente, na esfera dos clubes, no calor das provas, há a percepção (nem sempre exacta) de um certo prejuízo?

Marco Ferreira foi-se impondo na arbitragem, dentro do campo, por ser um árbitro – como dizer? – fora do "cardápio" habitual. Tem o bom princípio de deixar jogar, o que é muito difícil num campeonato como o português, em que há não apenas o "culto da falta", mas também uma propensão muito especial (e irritante) por parte dos jogadores em simularem a falta. À distância, não parece ser um árbitro susceptível de ser pressionado e influenciado. Terá pago a factura de ter tentado usar de uma conduta à margem dos lóbis dominantes? É verdade que, este ano, não teve uma época das mais conseguidas, com alguns erros de monta nalguns jogos, mas até ao ponto de ficar em último e ser despromovido vai uma grande diferença. É um escândalo. É um dos maiores escândalos desta temporada, com forte tendência para ser abafado, como têm sido outros na história do futebol nacional. Despromover Marco Ferreira e proteger árbitros como Paixões, Capelas e C.ª é a prova de que o sector da arbitragem está profundamente doente.

Conhecida a classificação, as reacções à despromoção de Marco Ferreira foram todas muito brandas e mui românticas. A APAF diz que "não entende" [a despromoção]. Não há ninguém que a entenda. Este desconchavo acontece num momento em que se deram condições remuneratórias aos árbitros muito satisfatórias, num ambiente de profissionalismo que foi "vendido" aos árbitros – pelos responsáveis da arbitragem – como um éden (para os árbitros) e uma forma de reduzir o ruído em torno do sector. Atira-se assim um árbitro pela escada abaixo, porquê? Quem protege esta corporação de observadores, cujo escrutínio passa também ao lado da opinião pública? A quem interessa que os relatórios não sejam públicos?!

Os dirigentes dos clubes de futebol falam em "verdade desportiva" mas poucos agem nesse sentido. E isso mostra bem que só estão interessados em "controlar" e não em atacar os vícios e as entorses sistémicas.

Estranho o silêncio de Vítor Pereira. O presidente do Conselho de Arbitragem da FPF não pode ficar à margem e lavar as mãos como Pilatos. Não pode deixar cair Marco Ferreira, a menos que esteja metido nesta engrenagem para o deixar cair. Se não conseguir reverter a situação – e já são demasiados os casos de classificações "engatadas" –, então demita-se. Este caso faz-me lembrar o do ex-árbitro Pedro Henriques, que nunca mais se endireitou depois de uma polémica arbitragem no Estádio da Luz.

O sector da arbitragem não pode continuar a ser uma organização secreta, que faz o que quer. Pode mudar de "patrões", mas continua a fazer o que quer. Até quando?

Jardim das estrelas -- 4 estrelas

Auditoria com coragem

1 O Sporting só conseguirá entrar em paz depois de serem revelados e conhecidos os detalhes da auditoria promovida pela presidência de Bruno de Carvalho. É bom lembrar que, durante anos, muitos se interrogaram sobre a natureza da gestão que sucessivas presidências (não) fizeram sobre a gestão (nomeadamente) do futebol, no Sporting. Para quem não tem nada a temer, o conhecimento da verdade financeira do clube de Alvalade, nos seus detalhes, até deveria ser promovido. Mas houve uma "linha de continuidade" que a todos contaminou e parece comprometer. Má gestão houve de certeza. Mais do que isso é o que vamos ver. Certamente que os sócios do Sporting querem paz no clube. Mas a paz não eclodirá com o enterro do passado. A paz só é possível depois de se perceber o que levou um clube tão grande como o Sporting a ficar à porta do cemitério. Mais escrutínio e regulação noutros sectores, e Portugal também não tinha chegado ao que chegou.

2 Jogadores emprestados não poderão defrontar clube de origem. É um significativo avanço em relação à balbúrdia instalada nos últimos anos em relação a esta matéria. A redução de clubes na 2.ªLiga também é uma boa decisão. O futebol profissional em Portugal deve aproximar-se da sua realidade estrutural e financeira. O sorteio dos árbitros, cuja votação foi adiada, não é o melhor sistema, mas… mais vale sorteio do que nomeações "a la carte".

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