Major Valentyn
Depois de 14 anos em Portugal, os últimos 7 à frente da Selecção Nacional de basquetebol, o ucraniano Valentyn Melnychuk está de abalada para Kiev, onde vai concretizar o sonho de comandar a principal selecção do seu país. É uma "transferência" normal, não só pela oportunidade de ver reconhecido em casa o seu valor, mas também porque o experiente treinador considera já ter idade para regressar ao ponto de partida.
Quis o destino que o adeus ocorresse pouco depois de Portugal ter brilhado como nunca a nível internacional. O desempenho no Europeu de Espanha foi notável, ao ponto de jogadores e técnicos terem passado a ser falados por gente que, até então, desconfiava que por aqui só se jogava futebol.
Tive a oportunidade de, ao longo dos tempos e em várias viagens, conversar imenso com o "ucraniano maluco", como o próprio, no seu jeito afável e brincalhão, costuma apresentar-se. Fi-lo no âmbito da ligação normal entre um jornalista e um treinador, mas também como amigo. Dialogar com alguém tão humilde, honesto, trabalhador e que irradia felicidade por viver e poder ser profissional da modalidade que ama é um autêntico privilégio nos dias de hoje.
Como não poderia deixar de ser, a despedida - ou um até à próxima - foi feita à mesa, rodeados de petiscos nacionais que este ucraniano "naturalizado alentejano" (expressão que utiliza por ter vivido em Ponte de Sor) aprecia como poucos... portugueses.
Nesta conversa, confirmei o que Valentyn sente pelo nosso País, pelas pessoas que cá conheceu. Como afirmou na entrevista ao meu camarada Vítor Ventura, já sente saudades e ainda não partiu. E, desenganem-se os que pensam que ele não sabe o significado da tão portuguesa palavra saudade. Sabe e utiliza-a com propriedade. 14 anos não são 14 dias.
Enquanto se prepara para iniciar a longa viagem de automóvel até à capital do seu país, Valentyn tem medo que a sorte lhe pregue, em breve, uma partida. "Não quero que Portugal e Ucrânia joguem no mesmo grupo de qualificação para o próximo Europeu. Tenho Portugal no coração...", afirma, acrescentando que, sempre que o desporto luso competir em Kiev, lá estará para matar saudades, falar a nossa língua e, quem sabe, ouvir um fado ou beber um tinto. Perdemos um seleccionador, mas ganhámos um grande embaixador.
O Major Valentyn - não confundir com o Valentim, como tantas vezes o ouvi dizer... - vai deixar saudades. Porque se é verdade que, como qualquer pessoa e treinador, comete deslizes e faz más opções, este pertence ao restrito lote dos que reconhecem os erros sem precisar de insultar ninguém, nem de se colocar em bicos de pés. Mas, como a história prova, ele é pouco dado aos tropeções. Segredo? O trabalho!
