Messi às portas do céu
1 A meio campo, Enrique ganhou a bola e tocou-a para o lado; Maradona recebeu, dominou, virou-se e acelerou em contramão na autoestrada que levava à baliza adversária – começara a mais bela viagem da história do futebol. Nos 50 metros que o separavam do destino desviou-se de todos os obstáculos, furou a guarda armada de Sua Majestade e marcou o golo do século. Na cabina, Enrique reclamou a paternidade do lance: “Diego, depois daquele passe, estava a ver que não marcavas golo”. No passado domingo, 28 anos depois da vitória argentina sobre a Inglaterra no Mundial de 1986, Maradona publicou no Facebook uma foto do velho companheiro com a seguinte frase: “Obrigado Negrito Enrique, sem a tua assistência nada disto teria acontecido.”
2 Quase três décadas depois, o herdeiro de Diego regressa ao maior salão de festas do futebol, aquele que pode levá-lo para o céu. Messi não vem para bater o insuperável mas para se juntar à elite. Em 30 anos, Ronaldo Fenómeno, Rivaldo, Zidane, Figo, Ronaldinho e Kaká estiveram próximo mas não se eternizaram nos moldes daqueles que o céu acolheu como símbolos imortais. Já Leo e CR7 dependem mais de circunstâncias coletivas e menos do reconhecimento individual. Mesmo que Maradona tenha sido o único a viver acima do futebol e a tornar-se mais importante do que a bola; que o seu pé esquerdo permaneça a criação mais perfeita da história; que ninguém tenha conjugado como ele o génio de solista e a fúria de general implacável, Leo tem uma palavra a dizer. A começar pelo Brasil’2014.
3 Messi é promotor de insurreições, criador de milagres avulsos e de malabarismos assombrosos que cumprem todos os requisitos da eficácia; artista que multiplica o perigo à sua passagem; fenómeno que sai dos apertos sempre por cima, guia os companheiros e age como se os adversários fossem simples bonecos sem vontade própria. Quando entra em contacto com a bola, disparam todas as sirenes: uns entusiasmam-se com a esperança; os outros tremem só de pensar no que aí vem; as bancadas explodem de emoção, conscientes de que chegou o momento no qual o futebol assume a condição de espetáculo grandioso. Os seus exercícios individuais são epopeias de exaltação perpétua; no fim, temos a certeza de que Deus existe e o futebol é uma expressão de arte tão assombrosa como outra qualquer.
4 Diz-se que para aspirar ao patamar divino onde habitam as maiores glórias de todos os tempos, Messi deve concentrar em três semanas os milagres de uma época. Terá de atingir o grande palco e jogar como um extraterrestre; não mutilar o espírito livre e criativo de talento esplendoroso e dar-lhe eficácia; interpretar as insuficiências coletivas e ultrapassá-las à custa de genialidade exclusiva; ser campeão do Mundo, de preferência como Diego foi, não por estar integrado no exército mais forte mas porque, sem ele, a glória seria impossível de alcançar. Neste Mundial, está para a Argentina como Neymar para o Brasil, Robben para a Holanda, Benzema para a França ou James para a Colômbia. Porque CR7 já está fora, só ele pode invadir o território sagrado dos deuses. Pela amostra dos dois primeiros jogos, está às portas do paraíso.
Impreparados para o Mundial
Com a Alemanha o desmoronamento coletivo começou num golo sofrido nos minutos iniciais
Com os Estados Unidos, em jogo de tudo ou nada, um golo marcado ainda mais cedo não foi ponto de partida para exibição que conduzisse a equipa a porto seguro. Quer dizer: quando teve circunstâncias adversas, todos os alicerces ruíram; quando criou um cenário favorável, não teve condições para aproveitá-lo. Podemos discutir o que deve fazer-se daqui para a frente. Mas o que aconteceu no Brasil foi um caso de insucesso momentâneo, do qual importa extrair todas as conclusões. A mais dolorosa das quais que a Seleção não estava preparada para jogar o Mundial.
O melhor médio do Brasil’2014
Algo está mal quando, ao fim de uma época a ver um jogador, nos deixamos surpreender
Herrera está a fazer um Mundial inacreditável. No FC Porto, por atraso na adaptação, falta de confiança e ter ido na onda depressiva de uma equipa a desfazer-se aos poucos, não mostrou metade do talento. No Brasil tem sido notável: defende e ataca; joga, remata e organiza; dribla, leva a bola e passa à distância; está em toda a parte, só toma boas decisões e revela autoridade absoluta. E depois para ele não há calor ou humidade: joga com intensidade máxima do primeiro ao último minuto, sem quebras de ritmo ou diminuição de eficácia. Até agora, é o melhor médio do Mundial’2014.
Golo roubado sem violar a lei
A maior grosseria cometida por um árbitro no Mundial não foi um erro: foi um abuso de poder
No Suíça-França, o holandês Bjorn Kuipers decidiu em função das regras que, por certo, domina como a tabuada – decorou as leis, as alíneas, os pontos, as vírgulas, os pontos e vírgulas... E roubou um golo ao Mundial. No futebol o árbitro é o dono do tempo. Acabar o jogo um segundo antes de Benzema assinar um dos melhores golos da competição, só porque lhe apeteceu, é um crime, não segundo as leis mas para o entendimento do que é o futebol. Noutras condições estaríamos a falar de seriedade duvidosa. Como a França vencia por 5-2, foi apenas uma estupidez sem limites.
