Meu querido joelho

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Meu querido joelho
Meu querido joelho

Saio do Marselha e vou para a Reggiana. 23 de novembro de 1993. Três dias depois de chegar a Reggio Emilia. No meu primeiro jogo, pela minha nova equipa. A estreia no Calcio. Faço um grande golo e contraio a lesão mais grave de toda a minha carreira, com apenas 27 anos. Sou operado no dia seguinte pelo professor Mario Gandolfi, em Verona. As primeiras estimativas apontam para uma recuperação rápida. Três a quatro meses, no máximo. Mas não. Nunca um jogador de futebol sofrera a rutura parcial do tendão rotuliano (só um profissional de esqui teve algo semelhante) e ninguém sabe muito bem o que se pode fazer. Resultado: só volto a jogar dez meses depois, a 29 de setembro de 1994, frente à Roma. Já com 28 anos.

Mas o joelho continua a doer e o músculo muito atrofiado (com uma grande diferença de centímetros para o outro). Regresso a Verona. Mesmo médico, mesma operação. A minha segunda cirurgia em menos de um ano. Só volto a jogar no final dessa temporada, em abril de 1995, já com 29 anos. Mesmo coxo, consigo marcar vários golos nos poucos jogos disputados. O AC Milan, atento ao meu percurso no final dessa temporada, pede à Reggiana se pode ceder-me para uma digressão de final de época na Ásia. Já não sou menino para experiências, mas aceito embarcar nesta aventura. Não posso falhar. E não falho! Jogo sempre a titular e sou considerado “o melhor em campo” em quase todos os jogos. Assino contrato quando regressamos a Itália. Sou jogador do AC Milan depois de todo o sofrimento que passei. Estava a viver um sonho.

Mas ainda antes de começar o campeonato… volto ao inferno: as dores no maldito joelho. Vou a vários especialistas e ninguém quer operar-me. Aliás, todos dizem que devo retirar-me. Estou com 29 anos, o joelho massacrado, e ninguém acredita que eu possa recuperar e voltar à alta competição. Além disso, sou jogador do AC Milan. Eles têm medo. Se alguma coisa corre mal, o culpado é sempre o último a mexer. Ninguém mostra vontade e coragem para arriscar dessa maneira. Já estava a perder a esperança e a fé quando prometi a mim mesmo fazer uma última tentativa. Uma consulta, em Paris, com o professor Gérard Saillant. O homem que, anos mais tarde, iria operar o brasileiro Ronaldo à mesma lesão e permitir que a sua carreira durasse mais algumas épocas. Comigo foi igual. Se ainda consegui jogar futebol, devo-o à competência do professor Saillant: o melhor médico do Mundo no tratamento do tendão rotuliano. Foi ele que voltou a pôr o meu joelho direito em condições e foi ele que me permitiu ir a tempo de fazer um jogo oficial pelo AC Milan e sagrar-me campeão italiano em 1995/96.

Depois, joguei no West Ham. Disse um primeiro adeus por causa das dores no joelho, voltei a jogar pelo Atlético de Madrid numa altura em que já era embaixador do clube (fui o único jogador a sair da gravata para as chuteiras) e terminei a carreira no Japão. Tinha 32 anos. Após a primeira operação ao joelho, ainda consegui jogar mais cinco anos. Parecia impensável, dada a gravidade da minha lesão naquela altura. Mas nunca mais voltei a ser o mesmo jogador. E sofri bastante em todos esses anos, com operações umas atrás das outras. Não há nada pior para um jogador de futebol do que estar nessa luta constante, afastado dos relvados, da bola, dos jogos.

Lembro esta história numa semana em que Victor Valdés, guarda-redes do Barcelona, se lesionou com gravidade no jogo frente ao Celta. Fez uma rotura do ligamento cruzado anterior do joelho direito, vai ficar parado seis meses e perde o Mundial. Além disso, o contrato de Valdés com o Barcelona termina no final da época, ele já tinha dito que queria tentar uma nova aventura, fala-se que poderá estar a caminho do Monaco, mas não se sabe se já assinou contrato com os franceses. Imaginem que ainda não o fez. E agora? Será que o Monaco, ou outro clube, ainda o quer?

Este é o risco enorme que correm os jogadores de futebol. De um momento para o outro, a estabilidade e as certezas do futuro podem acabar-se devido a uma lesão. Nestas alturas, precisam de ter um grande apoio da família e amigos. Felizmente, foi sempre o que aconteceu comigo. Por maior capacidade de sacrifício que tenhas, nunca vences estes obstáculos sozinho. Sem a ajuda daqueles que gostam de ti.

O Valdés, porém, é um campeão. Tenho a certeza que vai ultrapassar este drama e voltar a defender a baliza de um grande clube europeu. Força, muita força! É o que posso desejar para ele e para todos os jogadores que lutam por recuperar de lesões difíceis. O futebol precisa de vocês!

Grande depressão

A depressão de Ferdinand

O capitão do Manchester United, Rio Ferdinand, está deprimido por causa dos maus resultados. “Não quero sair quando o jogo acaba e até deixei de ver televisão. Não quero levar os meus filhos à escola. Não quero ver toda a gente a olhar para mim e a falar de resultados. Não quero viver assim.” Consigo entender que ele se sinta assim (até porque fomos companheiros no West Ham) mas, sendo o líder do grupo, nunca deveria dito isto publicamente, porque o United ainda está nos quartos-de-final da Champions, e pode passar uma mensagem errada aos seus colegas de equipa.

Nós lá fora

Tiago no Mundial

Está com 32 anos e continua a ser um médio espetacular. Esta semana foi titular na vitória do Atlético de Madrid frente ao Granada. E fez um grande jogo. O Tiago continua a ser um jogador fundamental no meu Atlético. Tem imaginação, técnica, excelente leitura tática, experiência e espírito de liderança. Está cada vez melhor. Decidiu abandonar a Selecção em 2011. Mas se eu fosse o Paulo Bento tentava convencê-lo a voltar para ir a este Mundial. Portugal precisa de um médio com esta qualidade.

Do meu álbum

Venha mais um clássico

Esta semana foi o primeiro de uma série de clássicos entre FC Porto e Benfica. E ainda podem ser mais se as duas equipas se encontrarem na Liga Europa. Este jogo fez-me lembrar os meus clássicos. Fiz vários com a camisola do Porto e um com a do Benfica. Nos meus tempos de Porto, também tive épocas em que estava sempre a jogar contra o Benfica: Supertaça, Taça, campeonato. É sempre um jogo especial. Há sempre motivação e paixão para estes jogos. E dá vontade de dizer: “Venha mais um clássico.”

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