Militância leonina
Filipe Soares Franco tem-se desdobrado, nos últimos dias, em entrevistas e declarações públicas que, resumidamente, mostram a sua tristeza em relação ao que considera ser a falta de militância dos sócios e adeptos leoninos. Entendo a sua angústia. Só me faz confusão que o líder do Sporting só agora tenha acordado para esta realidade e, pior que isso, pense combater a situação com medidas que, objectivamente, só irão contribuir para um maior afastamento dos sportinguistas.
Soares Franco aproveitou o momento para, numa táctica inovadora entre os leões, "espicaçar" as bases. E como o fez? Elogiando os rivais! Ou melhor: reconhecendo a maior capacidade de mobilização de águias e dragões. A constatação, embora algo inadequada e susceptível de provocar azia a muita gente, é correcta. Só faltou admitir que, para além do Benfica ter uma base de adeptos bem superior e do FC Porto beneficiar de ser o emblema hegemónico das últimas décadas, ambos tiram partido do facto de possuirem presidentes que, entre os seus defeitos (e são vários, acrescente-se...), têm a virtude de aparecer junto dos adeptos, de estimular o contacto com o povo, de mostrar que os clubes são bem mais que umas modernas SAD's de futebol que, já se percebeu, não salvam nenhum emblema dos seus cíclicos problemas financeiros. Quanto muito... apenas os adiam.
Quantos núcleos inaugurou ou visitou Soares Franco desde que é presidente? Quantas deslocações de promoção da marca do clube efectuou pelo Mundo? Quantos produtos inovadores no mercado lançou procurando captar novos sócios? Quantas vezes apareceu num pavilhão a apoiar as modalidades? Quantas vezes se empolgou, publicamente, com discursos às massas? Quantas vezes falou em português de alcance geral?
Soares Franco (e outros dirigentes leoninos) tem de saber - ou alguém devia explicar-lhe - que o Sporting não é uma empresa. A conversa do modelo de gestão empresarial está mais do que esfarrapada. As pessoas, mais ou menos cultas, mais ou menos atentas, já viram os resultados das ideias preconizadas por José Roquette, outra pessoa de boas falas, mas sem o tacto necessário para perceber o que é a realidade de um clube como o Sporting.
O que leva, hoje em dia, alguém a ser sócio do Sporting? Basicamente... nada! Ao contrário do que sucedia no passado, quem paga a quota não tem acesso gratuito aos jogos de futebol; não pode assistir aos treinos da equipa que se realizam longe e à porta fechada e não tem entrada de borla nas modalidades porque, para além de alguém se ter "esquecido" de fazer um pavilhão, as poucas que restam jogam em Loures ou no Casal Vistoso.
Acresce ainda que o povo cada vez tem menos dinheiro (coitados dos que alinharam nas conversas da SAD's para, como sempre, perder parte significativa do investimento); já percebeu que a sua opinião pouco ou nada vale face aos accionistas de referência, aos notáveis, aos conselhos disto e daquilo e, claro, à banca.
Para combater este "sistema", Soares Franco preconiza que o clube continue sem pavilhão, sem piscina, sem pista de tartan e, preferencialmente, sem modalidades. Mais: defende que os sócios apenas devem participar em referendos (presumo que de importância gigantesca) e que mais dirigentes deviam ser profissionais. O sua visão de futuro chega ao ponto de afirmar que "as modalidades não podem roubar dinheiro à actividade fundamental que é o futebol, o motor de todo este clube".
Soares Franco está errado. Muito errado e perdido num mar de incoerências. Quem fala assim das modalidades, como é que pode mandar hastear a bandeira do clube ao lado da olímpica aquando do começo dos Jogos de Pequim? Como é que pode querer homeneager o legado dos muitos atletas leoninos? Como é que pode dizer que se orgulha do eclectismo? Como tem coragem de falar dos muitos títulos ganhos nos mais diversos desportos?
O actual presidente do Sporting está apostado em transformar o clube numa equipa de futebol. E não percebe que são os péssimos investimentos efectuados aí, com prejuízos continuados de milhões, e o maus resultados (2 títulos em 25 anos) que ditaram o início das dificuldades financeiras. Quanto custaram, recentemente, as "experiências" com Purovic, Mota, Pinilla, Koke, Bueno, Farnerud e tantos outros. Será que essas opções não "roubaram" nada ao clube?
Soares Franco sabe que do outro lado da Segunda Circular também há quem veja o futuro como ele. Mas, se está mesmo interessado no futuro do clube, devia era falar com João Rocha e Sousa Cintra para, cada um no seu estilo, na sua área, o ajudarem a manter o Sporting como um clube grande e não apenas como uma equipa mediana de futebol.
