Mistérios à volta do Czar

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Mistérios à volta do Czar
Mistérios à volta do Czar

1 - Passou os últimos tempos entre o desânimo de cair e a felicidade de levantar-se. Mas mesmo quando se ergueu e confirmou talento, a música que transpareceu da atitude de Marat Izmailov foi mais próxima da desolação do que propriamente da alegria, sinal de que nunca iniciou verdadeiramente um novo ciclo.

Durante meses mostrou-se mais próximo de mitigar a dor e relativizar o tormento de uma vida feita de dúvida, do que em consolidar condição física, técnica e psicológica para ser o que é na realidade: um jogador excecional que, em termos potenciais, é dos melhores estrangeiros de sempre do futebol português. Falta perceber se a ausência das escolhas leoninas corresponde ao crepúsculo de um fenómeno ou reflete a indiferença perante a causa que devia defender.

2 - Olhando para as últimas temporadas, Izmailov é o melhor jogador do plantel do Sporting. A sua técnica é sublime no modo como articula a condução a alta velocidade; define o momento de soltar a bola em zonas de perigo e alimenta o jogo à distância, revelando visão quase escandalosa. Não será o habilidoso típico mas é perfeito em gestos fundamentais como receção, passe, cruzamento, finta e remate – a chegada é tremenda, porque tem tiro, pontaria e facilidade de disparo, com qualquer dos pés, a curta, média e longa distância. Rápido sem ter pressa; talentoso que recusa o adorno; discreto e ao mesmo tempo deslumbrante, tem o condão de melhorar todas as ações em que participa. É tremendo nas faixas laterais mas também exerce com distinção em zonas interiores.

3 - No conflito entre a ciência (que se recusa a encontrar motivos para a inatividade) e a vontade do jogador (que continua a queixar-se) giraram interesses já conciliados: o FC Porto, que não tem abundância nas alas (James, Varela e Atsu) e no meio (Fernando, Lucho, Moutinho, Defour e Castro); o Sporting, empenhado em reduzir custos (o russo auferia cerca de 60 mil euros/mês) e disposto a resolver um problema no plantel; o futebolista que, pelos vistos, deu por esgotado o espaço de manobra em Alvalade e quis mostrar que ainda não atirou a toalha ao chão. Se o dragão aposta em Izmailov, essa decisão inclui necessariamente a concordância do departamento médico azul e branco, razão pela qual a dúvida quanto ao seu estado físico, premente para o adepto comum, faz pouco sentido para quem o contratou.

4 - Não se trata agora de inventar um tribunal de consciências, orientado por interrogatórios insidiosos só para avaliar dores ou julgar comportamentos. Homem de natureza enigmática, impermeável aos afetos, de expressão metálica e coração indecifrável, Izmailov chega aos 30 anos com a imagem de mártir numa luta permanente contra o infortúnio. Em determinadas fases deste longo e penoso caminho pareceu resignado ao destino do fim prematuro, incapaz de resgatar ânimo dos escombros da desgraça que lhe marcou a carreira nos últimos anos. Por isso, era de todo imprevisível este parênteses de luz que se sobrepõe à anunciada escuridão do futuro: o interesse do FC Porto nos seus serviços transforma brumas de desencanto num radioso e surpreendente sol de esperança. Prova de que há mistérios à volta do czar que só o tempo poderá desvendar.

Bola de Ouro está entregue

É conhecido amanhã o vencedor do mais prestigiado prémio individual do futebol

No fim de cada ano, FIFA e “France Football” fazem uma pergunta a jornalistas, selecionadores e capitães das equipas nacionais. A mais recente foi esta: “Quem foi o melhor jogador de 2012?” O resultado só vai ser conhecido amanhã mas tudo indica que essa questão concreta tenha uma resposta desenquadrada: “O melhor do Mundo é Lionel Messi.” Quer isto dizer que há um diálogo de surdos entre quem pede e quem dá a solução. Não é um caso virgem, porque há dois anos esse desfasamento foi levado ao extremo: o despique entre os campeões mundiais Xavi e Iniesta foi ganho por... Messi.

Os números não enganam

Ser assobiado longe de casa pode ser uma distinção inspiradora para o alvo da ira exterior

Todos os estádios do Mundo podem assobiar Cristiano Ronaldo que ele saberá tirar da hostilidade um fator suplementar para ser ainda melhor. Delicada é a situação de quem é equacionado por quem lhes deve apoio. Cardozo é apenas o caso mais recente da relação de amor e ódio entre jogador e os seus adeptos. Num desporto marcado pela subjetividade, no qual o bom e o mau pode não passar de mera opinião, o golo é dado objetivo. Tacuara pode ser um jogador discutido mas os números não permitem duas interpretações: 148 golos pelo Benfica colocam-no entre os melhores de sempre.

Quando o árbitro passa do 8 ao 80

Nem todos os problemas da arbitragem estão relacionados com as novas tecnologias

Marco Ferreira, que roçou a perfeição no Sporting-Benfica, foi um desastre completo no último Freamunde-Belenenses. Como se não bastasse a falta de critério escandalosa na condução do jogo ainda somou erros grosseiros com influência no resultado. Vê-lo vestir as duas peles suscita dúvidas: pode um mau árbitro fazer exibição de luxo num palco de excelência? Pode um grande árbitro descer tão baixo? Marco Ferreira tem, rapidamente, de defender o lugar que lhe cabe: o de bom juiz que olha para cima e já não pode cair para níveis tão degradantes. Aquilo em Freamunde foi muito, muito feio.

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