Mito, logo existo
No FC Porto, conquistada a hegemonia do futebol português ao Benfica e sossegado em relação aos poderes da arbitragem, instalou-se a ideia de facilidade. Poder e facilidade. Poder que domina e ultrapassa as dificuldades. Poder que tudo domina, inclusive as fragilidades internas como se elas não existissem e não pudessem fazer a sua aparição. O FC Porto (ainda) está em 1.º na Liga (em igualdade pontual com o Benfica), mas corre o sério risco de não se apurar para os “oitavos” da Champions. A verdade é que, no espaço europeu e também a nível doméstico, o FC Porto está longe de corresponder. E isso deve-se ao “excesso de confiança” que Pinto da Costa colocou no problema da sucessão de Villas-Boas. Nem todos os adjuntos são líderes. E há adjuntos que não deixam de o ser, mesmo quando são colocados no lugar de comandantes.
Quando se ouve Vítor Pereira falar do comportamento desportivo da sua equipa em Nicósia percebe-se que o FC Porto tem um problema. O FC Porto jogou pouco ou quase nada. O FC Porto não assumiu o jogo, não comandou e fez de conta. No entanto, o seu treinador viu empenhamento onde nós vimos apatia; viu uma manifestação de “fomos Porto” onde nós vimos a antítese da “cultura Porto”; viu vontade de vencer onde nós vimos vontade de abdicar. Quem vê um jogo que ninguém ou poucos veem também tem um problema. Um problema de abstração.
Vítor Pereira não fala nem age “à Porto”. Fala “à Santa Clara” ou “à Espinho” ou “à Arrifanense”. Fala sem nenhum critério de exigência. Fala sem perceber a força de quem pode utilizar a comunicação para gerir a imagem e direcionar as mensagens.
Nas últimas épocas, consolidada a sua posição na competição nacional, o FC Porto passou a treinar-se na Liga portuguesa para jogar, em pleno, nas provas europeias, designadamente na Champions. Apoiado na força da “estrutura”, excetuando o caso de Mourinho que resolveu um problema de iminente fratura da SAD portista, acometida de divergências múltiplas, o FC Porto cultivou a ideia de que ninguém é insubstituível e que, tendo a “máquina” a funcionar, até um treinador sem currículo, pouco habituado às “altas cavalarias” do futebol europeu, poderia resistir. Apostar em Vítor Pereira não foi um capricho. Foi um risco minimamente calculado para eliminar os efeitos imediatos provocados pela “chicotada” imposta por Villas-Boas.
Agora estará Pinto da Costa a fazer contas e a tentar perceber até onde pode levar o risco correspondente à imposição do mito. A Liga não está perdida. A Liga dos Campeões também não. Mas o presidente do FC Porto, embora vá tentar passar a imagem de confiança em Vítor Pereira, já terá na cabeça o nome do novo treinador – o verdadeiro sucessor de Villas-Boas.
NOTA – O Benfica está a fazer uma boa carreira na Champions, apesar do empate de ontem, frente ao Basileia. Parece claro, no entanto, que há demasiados jogadores para a frente e poucos para trás. E em certos momentos a equipa desune-se, confunde-se e perde... confiança. Sentiu-se a ausência de Jesus.
