Mourinho deseja-lhes as melhoras
César Luis Menotti, esse gerador de ideias que nunca foi homem de meias-tintas, encaixava com desprezo as críticas que o punham em causa como treinador. Considerava-se imune aos trogloditas que procuravam denegri-lo com argumentos absurdos e um dia, porque o coro atingiu proporções gigantescas, não teve dúvidas em afirmar publicamente: "Com os meus detratores precisava só de cinco minutos à mesa de um café para os pôr no lugar." A concessão do treinador argentino em dar troco aos contestatários serviu apenas para evidenciar o desfasamento entre o saber sustentado em anos de estudo e experiência e o primarismo dos argumentos de quem equacionava o seu conhecimento. José Mourinho vive situação semelhante. Um péssimo arranque do Chelsea bastou para voltar a ser alvo da ira acumulada durante década e meia de sucesso.
Diz Jorge Valdano que a primeira vítima da urgência e do ruído é a memória. JM já não é personagem para ser avaliado avulso, um daqueles protagonistas fortuitos e passageiros que o tempo conduz ao esquecimento: é um dos mais extraordinários treinadores da história, assente em percurso de exaltação perpétua, marcado por títulos persistentes e intervenção cujo mediatismo o eternizou no centro das atenções. Neste caminho acidentado e pouco pacífico, só permitido a deuses de um espetáculo associado à grande indústria em que o jogo se transformou, apimentou imagem e comportamento com extravagâncias, insolências, provocações e caprichos, elementos de uma liderança que não admite contestatários internos. JM é uma figura tão grande e esmagadora que já se considera acima do bem e do mal; um general implacável, que exige do exército lealdade ao comando, compromisso com as ideias e convicção no êxito definido como objetivo final.
Feito o balanço de 15 anos, criou uma nova corrente. Revolucionou o futebol por dentro (inovou o treino, adaptou-o a novas exigências, dando eficácia à operacionalização de conceitos aplicados ao jogo) e acrescentou-lhe dimensão por fora (por ser um fenómeno ganhador, tornou-se referência antes, durante e depois dos jogos). Apesar das vitórias, o seu legado ultrapassará a estatística; sendo um mero treinador, a sua figura já excedeu o futebol; elogiado pela excelência com que maneja algumas particularidades da atividade, poucos na história foram tão perfeitos no domínio de todos os capítulos relevantes no futebol moderno. É um homem avançado no tempo, que conduz ideias maiúsculas com palavras, decisões e atitudes à margem do senso comum; resgatou a grandeza do futebol enquanto expressão coletiva; estimulou em cada comunidade o espírito de quem entende a causa como se fosse uma pátria e criou milhares de inimigos pelo caminho. É sempre assim.
Um dos pecados de JM foi o sacrilégio de tornar mais evidente mediocridade e incompetência. À sua volta multiplicaram-se vampiros do mérito alheio que se deliciam a cada ameaça de insucesso e se preparavam agora, face ao penoso arranque do Chelsea, para ajustar contas pendentes. Não é obrigatório ter simpatia pelas grandes estrelas – o direito de não gostar é mesmo legítimo se estilo, intervenção e métodos utilizados nos ferem a sensibilidade. Inadmissível é misturar considerações de personalidade com os alicerces que suportam um grande treinador como JM. Muitos desses pobres de espírito saíram das cavernas onde vivem e confirmaram a pobreza dos argumentos com que procuram denegrir o trabalho, o peso na história e o currículo construído pelo treinador português. São aqueles que olham para um génio do futebol e só veem arrogância, vaidade, desprezo e falta de escrúpulos. Com esses nem vale a pena perder cinco minutos de conversa à mesa de um café. É só cumprimentá-los, sorrir e desejar-lhes as melhoras.
Chegou a hora de André André
Há duas espécies de jogadores que não podem oferecer qualquer dúvida.
André André pertence a uma delas: a dos craques – a outra é a dos maus. Numa época de comunicação e tecnologia é incrível que só tenha chegado a titular do FC Porto aos 26 anos. Talento superior, solidariedade, intensidade, inteligência, presença e influência são qualidades que, no mesmo futebolista, podem fazer dele um fenómeno. Depois de tanta distração, vá lá que ainda foram a tempo de aproveitá-lo.
Nélson Semedo no caminho certo
A simplificação em atividades complexas e delicadas é uma arte difícil de atingir.
Nélson Semedo foi promovido por Rui Vitória da equipa B e achou bem; tornou-se titular do bicampeão nacional e achou melhor ainda; chegou ao Dragão para assumir o duelo com Brahimi, acenou com a cabeça, arregaçou as mangas, fixou-o nos olhos, tratou-o logo por tu e, contra todas as previsões, não perdeu o duelo com um dos melhores jogadores da Liga. As dúvidas começam a dissipar-se: temos jogador.
Fredy Montero de altos e baixos
Os avançados precisam de golos para viverem bem e serem felizes.
Montero viaja na montanha-russa entre o alto de uma qualidade indiscutível e os baixos de um apagamento que, por vezes, se estende por tempo excessivo. O problema é que, mesmo em baixo, nunca apaga a esperança de, a qualquer momento, cruzar-se com a glória. E quando isso acontece, os mesmos que desejavam apertar-lhe o pescoço querem abraçá-lo com gratidão. É aí que nos encontramos agora.
