Mourinho e Octávio
AVALIAR – O que é um grande treinador? A resposta mais fácil, seguindo o raciocínio vigente, num País em que o conceito de futuro é logo à noite – porque amanhã já pode ser tarde –, aponta no sentido de ser aquele que vence mais vezes. Entre as várias definições possíveis há uma, feita a meio da década de 70 por Stefan Kovacs, o romeno que pôs o Ajax de Cruijff a jogar divinamente, que dizia mais ou menos o seguinte: "O grande treinador é aquele que os seus pares, na plena posse das faculdades intelectuais, entendem como tal." Do ponto de vista formal é assim que deve ser em todas as actividades profissionais, porque os níveis de conhecimento e o seu domínio teórico e prático não podem ser avaliados em toda a extensão por elementos exteriores.
FUTURO – Mas há casos excepcionais, como o de José Mourinho e a U. Leiria. Se uma equipa trabalha bem, com entusiasmo e critério; se assimila a informação recebida e acredita no que está a ouvir e vai fazer; se vive feliz; se joga ainda melhor do que treina e começa a intimidar adversários mais poderosos; se ganha uma, duas, dez vezes; se os jogadores, que são sempre os obreiros das vitórias, entendem dividir os louros; se no momento de um golo, por exemplo, se unem espontaneamente caindo nos braços da pessoa a quem atribuem a maior responsabilidade do êxito, é preciso saber ler a mensagem e tirar conclusões rápidas: também esse é grande treinador. E não adianta rebater a ideia, resistir-lhe e projectar um cenário segundo o qual o mesmo homem não será capaz de criar igual empatia e obter os resultados idênticos noutro lugar. Porque todos esperamos estar cá para ver o que vai acontecer a seguir.
COMPETIÇÃO – O raciocínio de Kovacs tem apenas uma debilidade: nem todos os treinadores estão despojados de preconceitos na avaliação dos outros, porque são concorrentes e o elogio não cabe nesta vida de competição feroz. Entre aqueles que se recusam a ver Mourinho como treinador competente e de larguíssimo futuro, quantos podem responder pelo seu trabalho e medir com precisão os seus conhecimentos? Com que base, além de ideia preconcebida, o encaram apenas e só como fenómeno efémero e bom vendedor da sua própria imagem? Se nada sabe e é, aos olhos dos seus pares, um impostor, caberá aos outros treinadores de futebol apresentar argumentos para o desmascarar. O desafio que tem pela frente, ao serviço do FC Porto, servirá para saber de que lado está a razão.
INDEPENDÊNCIA – Na hora da mudança, uma palavra para Octávio Machado: com a generosidade do costume, pagou por erros e excessos que foram seus e pela incompetência de outros que não saem com ele. Profissional acima de qualquer suspeita, homem de integridade moral absoluta, a quem nunca vi atirar uma pedra nas dezenas de combates que promoveu ao longo de muitos anos, acabou enredado numa teia que se revelou fatal. Deu a cara pelas suas convicções e serviu de rosto a outras que não eram exactamente as suas. Quando percebemos o estado das coisas, ouvimo-lo dizer que o FC Porto está assim graças a João Pinto, o que até pode ser uma boa conversa para ter entre amigos, mas não em três conferências de Imprensa seguidas, vinculando a opinião oficial de treinador do clube. Octávio não deixa as Antas como entrou, vítima de um processo pouco transparente, mas com o essencial salvaguardado: a sua independência.
