Muito mais que diversão

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ESTRELAS – O cenário era S. Siro, a equipa o Inter e o momento um livre directo em zona frontal à baliza adversária. O espanto apoderou-se de todos quando Roberto Baggio e o próprio Ronaldo se afastaram do local, sinal de que passavam a pasta a um jovem uruguaio, número 20 nas costas, aquisição pouco sonante de uma época (1997/ /98) marcada pela constelação de estrelas comandada pelo simpático Gigi Simoni. Álvaro Recoba, que hoje já tem nome próprio, assumiu a responsabilidade. E fez golo, o que, para o caso, nem é o mais importante.

RITUAL – Serve isto de introdução a Hugo Viana, a mais recente aposta de Laszlo Bölöni, jogador fascinante que despertou no exterior sensações idênticas às de Recoba. Basta que esteja em campo e é quase certo que veremos toda a equipa afastar-se do sítio da falta, enquanto ele se encaminha para o ritual de pegar na bola, colocá-la no chão, dar uns passos para trás, levantar a cabeça e executar. Está encontrado o primeiro sinal do seu talento superior: o domínio de uma gama inesgotável de técnicas de passe, como não se via no futebol português desde os tempos de Figo.

OLHOS ABERTOS – Hugo Viana não faz como outros, que chutam por aproximação para o meio do maior aglomerado de jogadores que houver na área. Abre os olhos, vê, analisa e define se o passe deve ser executado com a parte de dentro do pé ou com a parte de fora; se deve levar efeito ou não; se convém ao receptor que a bola leve mais ou menos força. E essa capacidade de execução é o ponto de partida que normalmente define os grandes jogadores. Dito de outra maneira: o potencial futebolístico, aquele que se tem ou não, está lá todo. Só falta o resto...

VANTAGEM – O mesmo se passa com Hélder Postiga, analisado segundo os padrões de um avançado rápido, com mobilidade, inteligente, que tem remate fácil e depressa encontra o espaço para o aplicar. Não é previsível que seja um goleador para a história mas é quase seguro de que está a vencer as etapas iniciais de uma carreira que terminará bem escudada em números. Postiga, como Viana, Ricardo Quaresma, Mawete Jr. e Bosingwa, para falar nos mais notados, têm outra vantagem: são muito mais que simples factores de diversão para os seus treinadores.

ARMAS – Bosingwa entrou no sistema de rotação do Boavista e acabará por fixar-se na posição de origem (médio-centro); Mawete já cometeu a proeza de salvar por duas vezes uma equipa que, órfã dos principais artistas (Zahovic e Drulovic) e com o fenómeno (Mantorras) em quebra de rendimento, confirma estar afinal longe da projectada maravilha; Ricardo Quaresma, que de todos foi o primeiro a aparecer, tem resistido aos efeitos da inevitabilidade de nem sempre jogar e viu agora confirmado que a aposta de Bölöni não foi apenas capricho: a equipa estava aflita com o Santa Clara e ele entrou para ajudar a resolver.

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