Mundiais: uma viagem pela evolução tática
O futebol de seleções tem sido, década após década, o maior espelho das diferentes revoluções táticas que o jogo foi vivendo. De Mundial em Mundial, treinadores e federações foram colocando na montra as suas ideias mais avançadas, umas vezes criando tendências de sucesso, outras demonstrando apenas incapacidade de acompanhar a evolução.
Nos anos 50 e 60 largou-se o famoso 'WM' para começar a entrar em estruturas mais organizadas, com os exemplos do 4-2-4 e do 4-3-3, começando a privilegiar-se a criatividade individual (vista no Brasil de 1958 e 1962), bem como o famoso 'catenaccio' italiano ou mesmo o pragmatismo inglês de 1966.
Os anos 70 trouxeram uma revolução mais profunda, com o surgimento do Futebol Total assente em posicionamentos dinâmicos, trocas posicionais e jogadores a atuarem em diferentes posições. É certo que a ideia não foi premiada com o título, mas ficou plantada uma semente para o futuro. A Argentina de 1978 e a Itália de 1982 voltaram a fazer jus a um futebol mais defensivo, de organização e rigor.
Nos anos 90, o pragmatismo instalou-se na maior parte das seleções, com o aparecimento de meios-campos povoados, médios-defensivos destruidores de jogo e transições rápidas a definirem os mundiais de 1990 e 1994.
Com a chegada do século XXI, o futebol entrou num ritmo ainda mais alucinante de evolução, com o ‘tiki-taka’ espanhol (2010) a privilegiar posses prolongadas, pressão alta e reação forte ao momento da perda. A Alemanha de 2014 respondeu com uma versão muito mais vertical e intensa desse jogo organizado de pressão constante e transições. O ‘pressing’ alto passou a ser regra e não exceção.
No Qatar (2022), Marrocos provou que é possível ter sucesso e eliminar seleções de topo partindo de uma ausência de pressão ao portador, baixando e juntando linhas, castigando nas transições. Uma lição de organização e inteligência.
A expetativa para este Mundial é elevada, podendo já verificar-se que a versatilidade tática e posicional é cada vez mais vista no terreno, com jogadores a desempenharem diferentes funções em diferentes momentos, e o jogo posicional a ser facilmente anulado por pressões individuais a campo inteiro.
Por outro lado, esta ideia de pressões híbridas, que alternam entre pressão alta a campo inteiro e blocos mais compactos, obriga a que o jogador seja extremamente evoluído na sua dimensão física. Se a esse facto acrescer o aumento do número de equipas e o exigente e variado clima norte-americano, os 26 convocados de cada seleção assumem extrema importância em detrimento do tradicional 11 que foi sendo decorado de mundial em mundial.
As fichas estão lançadas.
