Não me metam na porcaria

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1. Após seis anos de convívio e de cumplicidade com Jorge Jesus, a quem foi contratar ao Sp. Braga, o presidente do Benfica decidiu – ao longo da época 2014-15 –, independentemente de qualquer diligência contratual, formal ou legal, prescindir dos seus serviços.

2. Uma decisão legítima, cuja discordância só se pode colocar no plano da opinião. O presidente do Benfica foi eleito para decidir. Decidiu. A seu tempo ver-se-á se foi, ou não, uma boa decisão.

3. Parece claro, à luz de todas as informações passíveis de ser recolhidas, que o Benfica deixou de querer Jorge Jesus antes de Jorge Jesus deixar de querer o Benfica.

4. Mesmo com títulos conquistados e jogadores valorizados, criou-se a ideia de que Jorge Jesus era o principal travão da estratégia programática há muito delineada pela SAD e pela ‘estrutura’. A pirâmide estava invertida: era preciso mais ‘estrutura’ e menos treinador.

5. Na minha modesta opinião, o que falhou – e daí toda esta trapalhada – foi o Benfica não ter assumido CLARAMENTE o fim de ciclo. Fê-lo, naquela fase, de forma envergonhada. Coragem e frontalidade foi o que não existiu.

6. Parece inegável, igualmente, que Luís Filipe Vieira fez todos os possíveis para convencer Jorge Jesus a ‘ir ganhar dinheiro’ para um clube, no estrangeiro.

7. Parece ser inegável, também, que Jorge Jesus não gostou da forma como foi tratado, depois de ter conseguido dois títulos de campeão nacional para o Benfica e ter sido fundamental, não apenas na valorização de muitos jogadores, mas também na recuperação de uma dinâmica de vitória por parte do grande clube da Luz.

8. Jorge Jesus nunca escondeu que, não aparecendo um dos maiores emblemas do futebol europeu a requisitar os seus serviços, preferiria treinar um clube em Portugal.

9. Não sendo o Benfica, as duas maiores hipóteses seriam, obviamente, o FC Porto e o Sporting.

10. Tendo o FC Porto assumido um compromisso fortíssimo com Julen Lopetegui e relembrando que Bruno de Carvalho estava em conflito com Marco Silva, o Sporting, neste enquadramento, era, no mínimo, uma hipótese académica viável.

11. Muitos sectores, incluindo os responsáveis do Benfica, acharam que essa hipótese académica nunca se converteria numa hipótese formal, por aquilo que se entendia ser a incapacidade financeira do Sporting para concretizar a operação.

12. A notícia da contratação de Jorge Jesus pelo Sporting caiu, portanto, com o estrondo correspondente a uma bomba. O resultado da Supertaça foi gasolina regada em cima do incêndio provocado pela saída de Jesus da Luz para entrar em Alvalade.

13. O plano do Benfica em colocar Jorge Jesus num clube estrangeiro havia falhado e tudo o que se seguiu, mais o que estamos agora a assistir entre o ‘ruído ruidoso’ do Sporting e o ‘silêncio ruidoso’ do Benfica, é apenas uma consequência da fractura entre o Benfica e Jorge Jesus.

14. Acresce que o Benfica concluiu que não precisava mais de Jorge Jesus, num momento em que Bruno de Carvalho mais precisava dele.

15. É bom não esquecer que Bruno de Carvalho precisaria de uma solução credível para passar incólume sobre o processo que vitimara Marco Silva.

16. Disso dei conta nos meus comentários. Achei sempre que Jorge Jesus era o treinador ideal para Bruno de Carvalho poder ganhar algum fôlego como presidente do Sporting.

17. Nunca – em nenhum momento – escondi a minha admiração profissional pelo treinador Jorge Jesus. Elogiei-lhe as qualidades no Belenenses, no Sp. Braga (muito) e no Benfica (muitíssimo).

18. Estas vingançazinhas que todos percebemos estarem a acontecer não prestigiam nem as instituições nem os protagonistas. A pressão é grande, mas não pode valer tudo, nem nos departamentos de comunicação nem nos escritórios dos advogados. A rábula dos SMS, o não pagamento do ordenado, os pedidos de indemnização e mesmo esta questão das ‘prendas aos árbitros’ inscrevem-se no âmbito dessas vingançazinhas.

19. É óbvio que todos os treinadores e todos os empregados, quando mudam de entidade patronal, levam com eles o capital e o conhecimento acumulados durante o tempo que por lá passaram. Há uma fase terminal nos contratos dos treinadores que corresponde, mesmo de um modo não formal, à preparação do começo de um novo ciclo. Acontece com todos.

20. (NOTA FINAL) - Há quem goste de se ‘refrescar’ na porcaria que entope os esgotos do futebol nacional. É um gosto duvidoso mas legítimo. Mas não me metam nisso. Os departamentos de comunicação não devem substituir os presidentes. Se Bruno de Carvalho fala muito, e muitas vezes sem tento na língua, estragando com isso o alcance das suas (boas) propostas, Vieira esconde-se atrás do silêncio, deixando à solta quem amplifique os sons e os tons de uma suposta indignação. Quem fica pior perante a opinião pública?

Texto escrito com a antiga ortografia

O CACTO

Prendas sem explicação

O presidente da Liga, Pedro Proença, foi considerado um dos melhores árbitros do Mundo. Conhece os bastidores, conhece os protagonistas, conhece o negócio. Ele lá sabe por que razão aceitou o desafio de liderar a Liga. Os árbitros deveriam manter uma distância total dos clubes, e Pedro Proença deveria ser o primeiro a sabê-lo. Ser árbitro não é mostrar favoritismo por este ou por aquele; é assumir uma posição absolutamente neutral. O sector da arbitragem deveria ser independente e deveria ele próprio lutar por essa independência. A aceitação de um ex-árbitro internacional, reputado, para fazer a gestão do futebol profissional foi um momento infeliz. Contranatura. É negligenciar o estatuto, ainda para mais quando ele foi a figura escolhida por uma parte dos clubes para fazer parte de um plano de instrumentalização que visava atingir outro lote de clubes e a própria Federação.

Não lhe ficou bem aceitar esse papel.

Como não lhe fica nada bem, agora, falar em ‘fait-divers’ entre Sporting e Benfica, quando foi questionado sobre a polémica mais recente, do ‘caso das prendas’, entre os dois ‘grandes’ de Lisboa e Portugal. Fait-divers?!

Os regulamentos são claros. São apenas consentidas prendas simbólicas.

Ainda não apareceu ninguém a explicar a razão pela qual, no meio de uma prenda que seria simbólica, são oferecidos ‘vouchers’ de refeições.

Porquê? É assim tão difícil explicar?

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