Não pode valer tudo

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Há muitos anos que não me revejo nas bases ou nas fundações em que assenta o edifício da arbitragem.

Não é, na origem, um problema nacional. É um problema mundial, que vem sendo fomentado pela FIFA, UEFA e IB (International Board), com efeitos sobre as Federações e Ligas de cada país, incapazes de operarem a mudança, porque elas não são mais do que extensões subsidiadas e instrumentalizadas por essas grandes organizações.

Este sistema à escala mundial gera os seus próprios subsistemas, nos quais se inserem as Federações, cuja finalidade é gerir os dinheiros externos e criar aquilo a que se pode chamar uma ilusão reformista. Quer dizer: fala-se muito, principalmente em tempo eleitoral, de mudança, transformação, reforma, mas os resultados desses processos de intenção são escassos ou praticamente nulos. Este sistema de organização do futebol mundial é – como dizer? – um monstro perfeito. Há monstros que se alimentam de bolachas. Estes monstros futeboleiros têm à disposição menus de degustação muito ricos em ‘proteínas’, mas – como se pode verificar através do escândalo que rebentou na FIFA – têm como prato favorito a corrupção, servida fria ou quente, depois dos canapés. O sistema é, por isso, potencial e formalmente corrupto, e tem um grau de resiliência impressionante.

Sem modificar a génese do futebol, algumas das leis do jogo já deveriam ter sido alteradas. Para além disso, é óbvio que os árbitros, em muitos lances, não estão em condições de decidir. Não é possível erradicar os erros das equipas de arbitragem, mas é possível reduzi-los significativamente com a ajuda das novas tecnologias, sobretudo os chamados erros grosseiros. Por que razão a FIFA e a UEFA, cuja vontade é essencial para a mudança, teimam em não reconhecer que o futebol se aproxima a passos largos da fraude?

Não pode valer tudo!

Não foi só por causa da arbitragem que o Sporting saiu da Champions. O Sporting saiu da Champions também por culpa própria. Depois do jogo com o Benfica para a Supertaça, viu-se que o processo de transformação do futebol do Sporting ainda tem muitas etapas pela frente, se houver paciência para isso. As ideias de Jesus ainda não estão na equipa e a equipa ainda não está com as ideias de Jesus. Há claras desconformidades físicas e técnico-tácticas e não se consegue entender como é que, em Moscovo, o treinador já se encontrava no prolongamento quando a equipa ainda se achava dentro da hora e meia.

Podem passar-se as mensagens que se quiserem, no sentido de não afectar a coesão do grupo, mas é evidente que a eliminação do Sporting na Champions não pode deixar de ter consequências. Creio, aliás, pela profusão de aquisições para o meio-campo, que o Sporting em certa medida se precaveu para essa eventualidade. Não vai ter de vender no imediato (estamos a dois dias do fecho do mercado) mas vai ter de o fazer até Janeiro. Fala-se de várias hipóteses, mas se a escolha recair sobre Adrien, por ter mercado e uma folha salarial generosa, o Sporting não perde apenas um grande jogador, a entrar numa fase importante de maioridade futebolística, mas também um (novo)… grande capitão.

O Sporting indignou-se com a arbitragem, que o prejudicou claramente nesta eliminatória com o CSKA, e, na verdade, neste recente regresso à milhagem da Europa (não esquecer o contributo de Leonardo Jardim e Marco Silva), o dano foi tremendo. Primeiro, com o Schalke; agora com o CSKA.

A arbitragem continua, como sempre, na ordem do dia e, numa época escaldante no futebol em Portugal, por razões que todos alcançam, o jogo falado atingiu o grau máximo da boçalidade.

O talibanismo dialéctico de certos personagens tornou-se insuportável. Há limites para tudo. Não pode valer tudo. Em defesa do emblema. Em defesa do patrão. Em defesa do indefensável. Sem um mínimo de educação, respeito e urbanidade. Estes recentes ‘fundamentalistas dos templos’ vieram conspurcar o ambiente televisivo. Os clubes querem ter a opinião controlada; as televisões não podem ir no engodo. Vivemos tempos perigosos e quem não tiver a noção disso está a prestar um mau serviço à democracia.

JARDIM DE ESTRELAS

Este Lito tem 'pedigree'

Lito Vidigal ainda estava no Belenenses (a fazer uma carreira brilhante) e já Ricardo Sá Pinto se encontrava ‘em espera’ para entrar no Restelo. Agora, Lito Vidigal está em Arouca e protagonizou a primeira grande sensação da época: derrotar o Benfica… em Aveiro. Tem ‘pedigree’ para ser um treinador de topo! Sá Pinto, no Restelo, parece ter recuperado a alegria de outros tempos. São bons, de facto, os treinadores portugueses nos aspectos tácticos… Sob pressão é que…

O CACTO

Que droga!

Na peça principal, aqui ao lado, fala-se de dois perigos: de o sistema vigente na arbitragem poder dar cabo de uma modalidade maravilhosa, nos seus aspectos técnicos e tácticos, como é o futebol, por falta de medidas que o tornem credível aos olhos dos adeptos e do público em geral; e de a comunicação social se deixar iludir com os contributos de alguns ‘talibãs’ do debate televisivo. Já bastava o que bastava e estes neogladiadores do circo televisivo são uma vergonha para muita gente. O clubismo exagerado é uma doença que provoca cegueira e irracionalidade e os programadores não podem continuar a alimentar este fanatismo, por causa das audiências. De facto, não pode valer tudo.

… E o ‘valer tudo’ inclui um terceiro perigo: não deixar que o futebol se transforme num ‘quartel-general’ em que se permitam todo o tipo de actividades ilícitas, desde espionagem a negócios com droga, etc.

São demasiadas as notícias do envolvimento do futebol e dos clubes de referência em Portugal em actividades criminosas e não chega declarar-se o desconhecimento ou a ausência de responsabilidade nesses processos. São coisas demasiado graves e comprometedoras para passarem incólumes.

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