Nelson saltou para a eternidade
Depois do título mundial, a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. Nelson Évora, apenas com 24 anos, já cumpriu o sonho de qualquer atleta. Independentemente do que acontecer no futuro (e tenho a certeza que ainda há muito galardão para conquistar e recordes para derrubar), o saltador do Benfica garantiu, em Pequim, a entrada no restrito lote dos heróis do desporto nacional.
Évora não é, do ponto de vista atlético, um saltador que intimide. Se o compararmos com alguns adversários chega a fazer confusão perceber que ele não só é tão bom quanto os outros como, repetidas vezes, faz questão de provar que é melhor. E tem ainda o condão de saber escolher os momentos exactos para o mostrar. Ainda bem, digo eu...
A forma como Nelson garantiu a passagem à final, com um salto de qualidade após um nulo, fez-me acreditar que o rapaz tinha mesmo condições para oferecer uma medalha a Portugal. E depois de o ver falar aos jornalistas... reforcei a ideia. Com a simplicidade dos grandes, mas sem ter medo de assumir as responsabilidades inerentes ao estatuto de campeão mundial, o atleta garantiu estar no melhor momento da carreira, desejou que os principais opositores estivessem ao seu nível no dia da final e, entre sorrisos, transmitiu uma mensagem de confiança que apenas os verdadeiros campeões o podem fazer. Estava na cara que só uma jornada completamente atípica lhe poderia roubar uma medalha.
Só que, desta vez, nem o tradicional fado que não se cansa de nos causar partidas desagradáveis foi capaz de se intrometer na caminhada triunfal deste autêntico "voador". Nem isso, nem a chuva, nem a qualidade da oposição, nem a pressão resultante da polémica nascida nos últimos dias em torno dos vários maus resultados nacionais na China. Nada o deteve!
Nelson entrou a todo o gás na final, jamais se acanhou com os bons saltos dos adversários e quando teve de ir buscar a força, a raça e a alma necessárias para responder a quem ousou retirá-lo do primeiro lugar... voou 17,67 metros, restabelecendo a melhor marca mundial do ano e ficando a escassos 7 centímetros do recorde nacional. A medalha estava garantida. E logo a mais brilhante, aquela que, até à data, só gente da estirpe de Carlos Lopes, Rosa Mota e Fernanda Ribeiro tinha conseguido em Jogos Olímpicos.
Nelson saltou para a eternidade e proporcionou enorme alegria a um País que, por muito que nos custe admitir, não tem a dimensão, a população, o dinheiro e a cultura desportiva que nos ajudaria, em condições normais, a ter mais atletas de topo. Logo, convém perceber que jamais sairemos dos Jogos carregados de medalhas. Mas, mesmo em Pequim, não era disparate pensar em mais duas ou três. Mas, como já o disse, não é só isso que conta. Quem dá o que pode, quem faz o seu melhor, também merece palavras de reconhecimento. No entanto, convém ter em atenção que este ouro não deve fazer esquecer o que correu mal, o que se disse sem pensar, as atitudes irreflectidas. É que em Londres gostava que se falasse apenas de sucessos, de superação, de recordes, de força de vontade, de espírito de sacrifício e não de "conversa da treta".
