Novela da vida real
O exemplo não é, de facto, bonito. Espatifar uma dúzia de chapas de plástico nos balneários depois de uma vitória istórica não prestigia os vencedores. Não saber ganhar é bem menos justificável do que não saber perder.
Mas mais espantoso foi o coro de virgens ofendidas que se fez ouvir a propósito do mau comportamento dos Sub-21 de Portugal, um punhado de miúdos iguais aos que vivem em casa de (quase) toda a gente. Basta dar uma olhada nas telenovelas
portuguesas e ver como os autores ficcionam as personagens de jovens cujo quotidiano é falhar nos estudos e falhar nos amores, vivendo sem esforço, sem trabalho e sem qualquer
perspectiva de futuro.
Aqueles rapazes que humilharam os franceses ao pontapé da bola são os filhos que esta nação cria, irresponsavelmente, que os clubes moldam como jogadores mas não formam como homens, e felizes dos pais que lhes podem atirar a primeira pedra. Quanto a pagar os estragos, não restam dúvidas: quem não lhes deu educação antes que se chegue agora à frente.
Bogicevic
Lá que ninguém pode acusar os dirigentes do Belenenses de não defenderem os interesses do clube no caso da rescisão com Manuel José, lá isso não pode. O antigo e próximo treinador dos egípcios do Al-Ahli podia ter ido mais cedo para o seu novo emprego se não fosse o cuidado posto pela equipa directiva azul na procura de um sucessor capaz de dar continuidade à filosofia de Manuel José, que é, como se sabe, a de "ganhar a qualquer equipa em qualquer campo". E como não havia, disponível, treinador português capaz de levar a bom porto tal nau, aqui temos nós o sérvio Bogicevic, um profundo conhecedor do futebol português e que, tal como Manuel José no Egipto, domina facilmente a língua do país de acolhimento. Boa sorte, Vladislav!
Hugo
O central do Sporting acabou, em Novembro, a presente época, logo num dos melhores momentos da sua carreira e depois de ter conseguido, pela mão de Fernando Santos, redimir-se da condenação às galés que lhe tinha sido aplicada pelo sorridente Boloni. Depois da sua incursão pelo futebol italiano, Hugo - com o qual começo por simpatizar por ele usar um penteado igual ao meu - lutou muito para se impor num plantel que tem Polga, Beto e Quiroga, três internacionais pelas suas selecções e com os quais o ex-bracarense lutava por um lugar no onze. E pensando também que Scolari talvez ainda lhe desse uma chance. Sonho esfumado sobre uma estúpida alcatifa, ao serviço da camisola que Hugo tanto tem honrado. Um exemplo.
João Pereira
Raiva, acho que ele o que sentiu foi raiva quando o Benfica lhe propôs a prorrogação do contrato, oferecendo-lhe um vencimento de ex-júnior, cerca de 950 contos por mês. João Pereira não gostou, mas teve de comer e calar. A vida não está fácil, há muita gente desempregada, os futebolistas não fogem à regra e, afinal, o que ele quer mesmo é ficar no Benfica. Por isso, não disse logo que não, ficou a remoer a ideia, se calhar, antes 950 contos do que a equipa B. Entretanto, lá se sentou no banco da nova Luz, pronto para actuar se o Estrela se fizesse difícil. Acabou por entrar, havia um 0-0 dos teimosos. Pegou na bola, fintou, flectiu, passou, desmarcou-se, recebeu e marcou. E pensou: amanhã venham cá que eu dou-lhes os 950...
Artur Jorge
Para uns, Artur Jorge é o eternamente futuro treinador do FC Porto, para outros é um técnico acabado. Estou entre os primeiros, tanto mais que sendo um velho fã de Bobby Robson, e caminhando também para a última fase da vida, não acredito que a sabedoria sirva para alguma coisa se o sábio passar as tardes no jardim a jogar à sueca.
A carreira de Artur Jorge em Portugal é relevante, a sua passagem por Paris duplamente inesquecível. Mas a vida do profissional de futebol não é só feita de grandes momentos, nem ninguém consegue perseguir a perfeição sem ter visto o lado negro das coisas. Toda a gente sabe que Artur Jorge já não precisa do futebol para viver, mas é o futebol que lhe corre nas veias.
A forma generosa como na derradeira temporada acorreu a Coimbra para salvar a sua Académica - um risco que muitos não correriam e de que outros, correndo-o, sairiam derrotados - revela bem o carácter e a coragem de um homem que soube, igualmente, nas últimas eleições para a FPF, fazer o que outros não ousariam: enfrentar quem se sabia ir ser vencedor.
Agora, Artur Jorge parte para Moscovo, com Raul Águas, para um desafio tão arrepiante como o frio que assola já a capital russa. É uma vez mais a paixão pelo futebol, o desejo da descoberta, o desafio de saber onde pode ainda chegar. O Mundo é teu, Artur.
Nuno Gomes
A mínima oportunidade que haja, não a perco: gosto de Nuno Gomes, gosto, portanto, de elogiar Nuno Gomes. Há poucos jogadores que motivem tanto os companheiros e entusiasmem tanto os adeptos como o ponta-de-lança do Benfica, e isso deve sempre ser salientado. Ainda agora, Nuno fez, contra o Kuwait, nova e cabal demonstração do seu talento: três golos em 18 minutos! Scolari ainda tentou minimizar o feito, apontando para os médicos da Federação, que deram o jogador como estando apto, mas Camacho é como eu: gosta do Nuno. Daí que tenha vindo a terreiro dizer que o seu avançado jogou lesionado contra os kuwaitianos. Grande homem o goleador: se mesmo coxinho deu três nos desgraçados, o que faria se estivesse bom!
