O adeus de CR7
Porque não nasceu em berço de ouro e tudo quanto conquistou lhe saiu do compromisso com a vida e a profissão, há muito que CR7 perdeu a inocência de menino dócil e bem comportado. Pelo caminho depurou o olfato com que deteta à distância todo o tipo de preconceitos, injustiças e faltas de respeito, e consolidou o orgulho com que moldou o caráter indomável de quem, tendo conseguido quase tudo, pretende sempre muito mais. Três Bolas de Ouro e quatro Botas de Ouro depois, sabe avaliar o meio em que está inserido: um clube com complexos de superioridade e altivez; uma imprensa que defende os seus com fervor e um presidente habituado a transformar juras de amor iniciais em ingratidão na despedida - que, por exemplo, não teve pejo em recorrer a um treinador de segunda (Wanderlei Luxemburgo) para expulsar sem dignidade um deus dos relvados (Luís Figo).
A época 2015/16 começou agitada, sugerindo tensão entre o novo treinador e a estrela maior. Pode Rafael Benítez dizer que CR7 é o melhor futeblista do plantel, admirar-lhe a competitividade e afirmar que não pode viver sem ele, que nem tudo soa a genuíno. O problema não será o espanhol olhar com desconfiança para o jogador português; o problema é saber se CR7 sente o respeito de quem o comanda. Sendo prematuro dizer-se que está em marcha uma operação de desgaste para a saída de Ronaldo do Bernabéu, há sinais preocupantes de desvalorização do feito assombroso que é, em apenas seis épocas, fazer 314 golos em 300 jogos. Lá para fins de setembro (na época passada fez 10 golos nas primeiras cinco jornadas), quando ultrapassar Raul (323 golos) e se tornar o máximo goleador do clube, talvez CR7 aceite negociar o adeus ao Bernabéu. Até lá, vão levar com ele. Como se isso fosse uma cruz.
