O anti-quase
Há uma linha do discurso de Bruno de Carvalho que não cansa ouvir. Há uma ideia-chave que, se aplicada à realidade de forma coerente e constante, só poderá trazer excelentes frutos. O combate à mentalidade do quase, ou, como Bruno de Carvalho também refere, da "meia vitória", é uma tarefa hercúlea no seio de um clube cheio de sofredores que já desistiram de exigir vencer.
Durante vários anos, cobri jogos do Sporting, e depois continuei a observar a equipa e o ambiente dos seus adeptos. Isto desde os anos oitenta até à primeira década deste novo século.
No Sporting, sempre achei estranho, tanto se acarinha de forma exagerada o jogador raçudo, mas desajeitado (Oceano, Vidigal, por exemplo); como o jogador tecnicista, mas débil e inconsequente (Dominguez, André Martins, Capel, entre muitos outros).
No Sporting, não vencer é encarado como natural, principalmente se os rapazes tiveram azar e até jogaram bem. O sportinguista suporta a dor da derrota com uma naturalidade que é alheia aos adeptos dos outros dois grandes do futebol português.
O que Bruno de Carvalho pretende fazer é uma revolução de mentalidades e terá de começar pelas suas escolas. É nos escalões de formação que o discurso ganhador, a vontade de campeão, se tem de impor pelo exemplo. Não pode haver espaço para jogadores mimados que ficam no chão a pedir faltas, enquanto o adversário lança o ataque. Jogadores que não pressionem, que não batalhem, que não cultivem o estoicismo, não podem ter lugar num clube que se quer campeão.
No futebol do Sporting, quantos podem contar aos mais novos a saga de terem sido campeões? Se Bruno de Carvalho quer ter sucesso no combate contra o "quase", terá de chamar ao treino e educação dos seus jovens os que sabem o que é ganhar.
Só campeões podem formar campeões.
