O atrevimento do menino João
1. Trouxe o fulgor da juventude e a motivação de uma porta aberta para a carreira que sempre sonhou; com ele viajaram o atrevimento e a irreverência de quem se propunha conquistar o Mundo com as armas da disponibilidade para aprender e do talento natural, dando seguimento à vocação sportinguista para descobrir, criar e lançar jogadores. João Moutinho foi chamado no início da época, entrou sem aviso e desapareceu sem deixar rasto; voltou mais tarde, quando já tinha caído no esquecimento, para consolidar um lugar no plantel leonino à custa do apurado sentido de responsabilidade com que se submeteu ao guião estabelecido. Em plena fase de definição, tornou-se peça fundamental no xadrez verde e branco, sinal claro e inequívoco de que não é um jogador qualquer.
2. Rápido, agressivo e criterioso com a bola nos pés, João Moutinho é a prova de que a grandeza de um futebolista não tem a ver com os centímetros, os quilos ou a relação que mantém com o cronómetro. Sendo um jogador rápido, fisicamente a sua principal qualidade é a potência que o transforma, em fracções de segundo, de defesa em avançado e vice-versa; é a capacidade para executar travagens e acelerações violentas suportadas num óptimo equilíbrio motor; é o jeito especial com que acrescenta inteligência à velocidade de reacção, ao arranque e às inversões de marcha. Jorge Valdano definiu este tipo de futebolistas como "gladiadores em miniatura" (perfeito) e "personagens de Walt Disney metidos em coisas sérias" (mais do que perfeito).
3. João Moutinho impõe-se pela dinâmica extraordinária, pela agressividade saudável que emprega nos duelos individuais e pelo vigor com que dispara para o objectivo final. Em termos técnicos, tem sentido de distribuição e é ágil com a bola nos pés; sabe o que faz, onde se coloca e como deve agir perante cada dificuldade; é hábil a sair de apertos e perigoso pela qualidade de passe. Por ser um fenómeno que reage mais depressa, compensa a estrutura física aparentemente mais débil. Nada de muito relevante neste desporto generoso que, ao longo de décadas, permitiu, ao mais alto nível, a afirmação de gordos (Ronaldo) e magros (Johan Cruijff); de lentos (Zidane) e rápidos (Henry); de altos (Van Basten) e baixos (Maradona); de aristocratas (Beckenbauer) e plebeus (Romário).
4. Porque não tem ânsia de protagonismo e revela a nobreza de quem vive para ajudar os companheiros (impressionante comprometimento revelado na acção defensiva), o tempo cumprirá a obrigação de lhe mostrar, ainda melhor, que o jogo é mais importante do que a bola. João Moutinho oferece mobilidade interior quando a circulação diminui a eficácia mas perde-se, algumas vezes, em exercícios supérfluos de condução solitária. Naquele futebol consistente à procura do lugar certo para se expressar, a livre iniciativa ainda exerce peso excessivo comparada com o entendimento das regras colectivas. A argumentação técnica e táctica de João Moutinho é a génese de um grande jogador. Mas o processo de construção só ficará concluído quando racionalizar melhor os ímpetos e solidificar a integração na equipa.
Flanco direito
O melhor da SuperLiga - Jorginho chega ao final da época com a certeza de que ninguém jogou mais do que ele em 2004/05; de que nenhum outro futebolista em Portugal o ultrapassou em magia, regularidade e compromisso com o emblema que defende. Em Leiria, o craque sadino foi brilhante. Concebeu dois quadros, pintou-os, deu-lhes sentido e só por ser amigo do seu amigo deixou que fosse Igor a assinar as obras.
Mensagens de grande jogador - Depois da exibição frente ao Benfica, e no culminar de uma temporada sensacional (foi a alma penafidelense na luta pela manutenção e ainda marcou aos três grandes), N'Doye adensou o mistério à volta do talento que possui. À corrente que o vê como futebolista vulgar em estado de graça, contrapõe ele com mensagens de grande jogador à procura de enquadramento mais sustentado. Se querem saber, acho que o rapaz tem carradas de razão.
Direito ao imaginário dos adeptos - Na tarde em que o Beira-Mar confirmou a despromoção (a verdadeira história deste monumental fracasso ainda está por contar), McPhee entrou no imaginário aveirense. Um choque violento com Pedro Roma criou pânico generalizado; ao fim de cinco minutos reentrou inferiorizado; em plena pressão da sua equipa, percebeu que não havia alternativa para travar o contra-ataque da Académica. Correu então 40 metros, fez um carrinho espectacular e salvou o golo certo. Um momento inesquecível.
O massacre e a ameaça do líder
O Milan chegou à final de Istambul permitindo que o seu exército de elite fosse massacrado em Eindhoven. Berlusconi insurgiu-se contra a miserável glória do golinho salvador e anunciou decisões drásticas caso a história se repetisse. Porque o instinto de sobrevivência supera as convicções e o lugar é mais importante que as ideias, Ancelotti fez a vontade ao líder. Meteu um avançado (Tomasson), tirou o médio (Ambrosini) que marcara o golo ao PSV e voltou a deixar Rui Costa de fora. Perdeu com a Juventus e, talvez, o título. Lamento dizê-lo: foi muito bem feito.
