O autogolo de Mourinho
José Mourinho é um dos melhores treinadores de futebol da actualidade. E tendo em conta a velocidade com que coleccionou importantes troféus nos seus primeiros anos de actividade enquanto técnico principal, não custa adivinhar que, mesmo depois de deixar o activo, continuará a ser lembrado como um dos grandes nomes da história do desporto que apaixona pessoas em todos os cantos do Mundo. Portugal pode e deve ter orgulho em tê-lo como seu cidadão. Mas, atenção, aquele que baptizaram de “Special One” também perde, comete erros e tem atitudes infelizes. Por outras palavras, é humano como todos nós.
Sendo óbvio que só um distraído ou mal-intencionado pode ignorar os feitos do setubalense, convém acrescentar que ele não é o único bom treinador no desporto-rei. Só em Inglaterra, por exemplo, Alex Ferguson, Rafa Benitez ou Arsene Wenger também são excelentes. Não sei se são melhores ou piores. Tenho é a certeza que sabem igualmente do ofício.
Uma das diferenças que Mourinho cultivou, desde cedo, para provar a sua distanciação em relação à maioria dos treinadores famosos foi optar, assumidamente, pela polémica. Mais do que não virar a cara a uma boa discussão, o antigo auxiliar de Bobby Robson “patrocinou” um sem número de questões laterais. Com elas, quase sempre ganhou vantagem, pois conseguiu motivar os seus atletas, desestabilizar adversários, levar a imprensa a falar de um tema quando outros (mais melindrosos para si ou suas equipas) era quase ignorados, etc, etc...
Mas, recentemente, Mourinho deu sinais de, ao contrário do que era costume, estar também a sentir a pressão. Os problemas internos no Chelsea, envolvendo o relacionamento com dirigentes e atletas, indiciaram que algo tinha mudado, mas a prova surgiu nos últimos dias quando, de forma absolutamente dispensável, comprou uma guerra de palavras com Cristiano Ronaldo.
Apologista destas situações, Mourinho devia ter sido o primeiro a perceber que o prodígio do Manchester United mais não fez do que defender o seu ponto de vista, a camisola que enverga, o clube que lhe paga. Visivelmente perturbado com tanto “stress” em torno da luta pela vitória no Campeonato, na Taça inglesa e na “Champions”, o setubalense gastou tempo e energia com questões menores. O que ganhou com isso? Penso que nada. Para já, viu dois troféus “voarem” e, pelo menos um deles, para o bolso de Ronaldo. E vamos ver se a colheita do madeirense fica por aqui.
Mas, independentemente do que Ronaldo e o seu United conquistarem esta época, penso que Mourinho devia ter tido em atenção que proferiu frases verdadeiramente inaceitáveis sobre um jogador de qualidade inquestionável, um profissional como ele, um português que também nos enche de orgulho e que, ainda recentemente, foi eleito o melhor jogador da nação em que Mourinho labuta.
Falar das dificuldades de infância do madeirense foi uma das piores jogadas da carreira de Mourinho. Um verdadeiro autogolo. Pedir desculpas, embora não faça o seu género, era o mínimo que devia fazer. É que saber perder e admitir os erros também é uma virtude.
