O bom-senso do futebol
Os ingleses são um povo especial. Por aquilo que comem, pelo sentido de humor, pelos debates que colocam na praça pública. Na semana que agora acaba, a grande discussão futebolística na Grã-Bretanha envolveu o Oldham, um clube da League One (o terceiro escalão) e um jogador até agora praticamente desconhecido no resto da Europa. Ched Evans, assim se chama ele, chegou a ser um promissor avançado galês - soma 13 internacionalizações A -, mas tornou-se mais famoso por tristes motivos: em abril de 2012, foi condenado a cinco anos de prisão por violação de uma mulher.
Evans foi considerado culpado por um crime hediondo (que ainda hoje nega), agravado pelo facto de ser uma figura pública e com responsabilidade de estabelecer um exemplo para os muitos miúdos, e não só, que adoram futebol. Em outubro deste ano, cumprida metade da pena, foi libertado. Como ainda tem apenas 26 anos, é um avançado que poderia encaixar-se em diversas equipas. O Oldham tinha praticamente tudo acertado para o inscrever nesta janela de transferências. Mas a opinião pública, encabeçada pelos patrocinadores, e algumas alegadas ameaças de morte a dirigentes, fez o clube voltar atrás.
Dar ou não dar uma segunda oportunidade a Evans tornou-se numa questão nacional. A maior parte dos treinadores da Premier League manifestaram-se a favor do jogador, considerando que ele já cumpriu a sua pena. Mas grande parte da sociedade está contra e até o primeiro-ministro David Cameron considerou "irrealista" esperar que Evans regresse de imediato ao Desporto. "Talvez ele deva fazer algo mais para dar à comunidade algum sentimento de reparação pelo que fez", afirmou, como que assumindo que a pena estabelecida pela própria Coroa do Reino Unido não era suficiente.
Após o recuo do Oldham, Ched Evans sabe que dificilmente terá uma oportunidade para jogar futebol profissional, pelo menos em Inglaterra. E mesmo que mude de profissão, será sempre "aquele violador". Já cumpriu a pena de prisão que o estado lhe deu, mas agora continuará preso para o resto da vida. É a prova de que o futebol, às vezes, consegue ter mais bom-senso do que o resto do mundo. Ched Evans já cumpriu a sua pena, mas ficará preso para o resto da vida como futebolista
