O bombardeiro que veio do frio
1.Há nele o espírito indomável de quem não teme a luta e dá o corpo ao manifesto por convicção. Quando entra em campo, Karadas afasta liminarmente a hipótese de criar amizades e declara inimigos todos quantos vivem do outro lado da trincheira; é nessa altura que lança os pressupostos de um estilo que gera dúvidas automáticas mas acaba por reunir o consenso da utilidade. Por ser ambicioso, espera que o Benfica lhe ofereça o prestígio que ainda não tem na Noruega; por ser inteligente, não vai desperdiçar a oportunidade para crescer como futebolista e atingir um nível que, porventura, nunca imaginou estar ao seu alcance. O primeiro balanço da aventura portuguesa é bastante animador.
2.A bola nem sempre lhe obedece e não poucas vezes suscita discussões que se prolongam no tempo; não é um virtuoso e isso vê-se nas fases do jogo que exigem argumentos para lá do físico e do instinto goleador. Karadas estimula a imagem de torpe e tosco mas ressuscita igualmente a sempiterna questão da diferença entre habilidade (generosa oferta da Natureza, que é imperioso adaptar às exigências da competição) e técnica (produto de trabalho, treino e disponibilidade para aprender). Como não pode triunfar com armas que não tem (o habilidoso nasce, não se constrói) impõe-se por antagonismo: pelo terreno que percorre; pelos choques sucessivos que deixam marcas no adversário e pela contribuição defensiva.
3.Mas a recepção não é má, o passe tem critério, o remate é fácil e no jogo aéreo possui os requisitos de altura, impulsão, tempo de salto e cabeceamento. Depois, também sabe coordenar os movimentos com a bola dominada; não se perde junto às linhas e gosta de participar na construção do jogo pelo centro, ainda que o faça de forma pouco refinada. Sendo um ponta-de-lança de arranques poderosos em espaços curtos, mais apto para acções letais de um só toque, Karadas só será totalmente feliz quando a equipa conseguir alimentar as suas melhores características. Para se preocupar única e exclusivamente com a finalização, precisa de transições mais rápidas e participadas; para ter maiores probabilidades de êxito na área, os envolvimentos laterais têm de ser mais constantes e objectivos.
4.Vindo do frio, onde o futebol não é fonte de tragédias ou glórias, Karadas já viu até onde pode chegar o sangue latino. Pelo meio, ouviu que é tosco, não tem jeito e mais valia ter ficado na terra dele. Respondeu com o desplante, em clima de alta tensão europeia (Heerenveen), de receber uma bola que ajeitou de calcanhar com o pé direito para, mais à frente e sempre em velocidade, fazer golo espectacular. Três dias depois, num jogo sem solução à vista, encontrou inspiração para, a trinta metros da baliza, ser o bombardeiro que estoirou com a resistência do Nacional. Tudo isso numa altura em que jogava na esquerda, onde parecia destinado a viver com o conforto de um peixe fora de água. E agora digam que o rapaz não merece, pelo menos, o benefício da dúvida…
