O brilho intenso da luz apagada

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1 Não se lhe conhece a voz, nunca revela o que sente e é impossível detectar-lhe as intenções; joga em silêncio, com a expressão impenetrável de um esforço sob controlo permanente, contrariando com discrição a exuberância dos actos e a influência que exerce na equipa. Jorge Luiz é uma autoridade em campo, sustentada pela perfeição e consistência do que faz, mas não extravasa para lá das quatro linhas esse poder reconhecido por companheiros e adversários. Neste Mundo de aparências, em que a imagem se sobrepõe ao que é importante para jogar futebol, ele é a estrela que brilha intensamente a partir de uma luz apagada pelo seu próprio temperamento. Só assim se explica o escasso protagonismo de que usufrui, sendo o melhor lateral-esquerdo a actuar em Portugal.

2 Jorge Luiz é um defesa de corpo inteiro que, por ser lateral, domina as regras específicas da recta que une as duas áreas. Elemento de um sector cujo funcionamento se aproxima cada vez mais da perfeição, sabe colocar-se perante os adversários (é difícil ultrapassá-lo em lances de um para um) e domina as funções que lhe cabem longe da bola (apoio à zona central, onde equilibra com inteligência e acrescenta os argumentos físicos imprescindíveis). Integrado numa comunidade que privilegia a coordenação colectiva, da qual resulta uma cadeia de movimentos harmónica e eficaz (o Sp. Braga defende como se todos fossem um só), obtém a carta de alforria para fazer vinte ou trinta apoios ofensivos por jogo. São viagens de ida e volta, entendidas como saídas precárias da prisão onde vive feliz, à esquerda de quem defende.

3 Dono de excelente articulação motora, Jorge Luiz conduz a bola de cabeça levantada e aproveita a velocidade para alimentar o jogo combinado, a um/dois toques, com o objectivo de eliminar adversários e aproximar-se da baliza. Costuma fazê-lo em acções verticais, permitindo a quem actua à sua frente soltar-se para o apoio ao ponta-de-lança, ou através de viagens por conta própria em zonas interiores, que geram vantagem numérica automática no centro. Na fase de definição dos lances, o cruzamento faz sempre sentido, porque nunca é executado à toa e tem destinatário definido; porque a técnica é apurada não costuma cometer erros que originem contra-ataques adversários; por ser bom avaliador do equilíbrio global, não arrisca nas situações em que a equipa está desarrumada e, por isso, vulnerável.

4 Jorge Luiz é um especialista que sabe tudo sobre a tarefa que desempenha e tem aproveitado o tempo para adquirir e refinar um número cada vez maior de qualidades imprescindíveis à função. Não é um adaptado como César Peixoto e Tello; supera Edson por dinâmica e Paíto por concentração; é mais profundo e robusto do que Léo e Miguelito; não se compara, em influência e talento, a parceiros do mesmo ofício como Dos Santos, Carlos Fernandes, Rogério Matias, Nandinho, Vasco Faísca, Areias e outros mais. Jorge Luiz concentra um manancial de predicados que o tornam único entre os defesas-esquerdos da Liga portuguesa: solidez e atrevimento; segurança e risco; inteligência e coragem; consciência e exuberância; rotina e aventura; defesa e ataque. Como já escreveu José Mourinho, “é um lateral de equipa grande.” É, sim senhor.

O património de José Peseiro

José Peseiro saiu de Alvalade beliscado, por ignorância e instintos primários, no seu património mais valioso: a competência construída ao longo de uma vida a estudar o treino e a ser reconhecido pelos seus pares. Prova de que o futebol uniformiza comportamentos, intelectuais e analfabetos, polícias e ladrões, fidalgos e plebeus juntaram-se em manifestações de um ódio inaceitável. Por mais erros que tenham sido cometidos.

A sentença do juiz Co Adriaanse

Bruno Alves perdeu a cabeça e agrediu Nuno Gomes com violência. Os actos irreflectidos do central mereceram da justiça desportiva a sentença de dois jogos de castigo. Mas podiam os doutos senhores optar pela simples repreensão, acompanhada por pedido de desculpas ao prevaricador, que o verdadeiro juiz do caso será Co Adriaanse. Ele é que vai decidir quantos jogos de suspensão se justificam face ao que todos vimos.

A história só agora começou

Tendo ainda muito que aprender e corrigir na acção defensiva, Nélson já não é propriamente um diamante em bruto. Com dinâmica atacante excepcional (corda para um jogo inteiro, assente em armas de extremo), o mais impressionante no seu jogo é a qualidade do cruzamento: com pé direito e esquerdo; junto à linha final ou longe dela; a fugir ao guarda-redes ou fazendo aproximar a bola da baliza. A história só agora começou mas perspectiva desenvolvimentos muito interessantes.

Já os vimos começar por menos

Quando entrou em campo, Rui Nereu foi visto como anúncio do apocalipse. Era como se os craques em desespero de causa lhe tivessem lançado o desafio inconsciente: “Ó miúdo, não queres ir para a baliza?” Se pelo caminho, até à área, era legítimo crer que o acompanhava o orgulho infantil de se juntar à gente crescida, entre os postes agiu com a serenidade e a classe de quem defendia as redes do Benfica, num jogo da Liga dos Campeões. Não é caso para dizer que está ali um grande guarda-redes. Mas, que diabo, já os vimos começar por muito menos!

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