O caçador de talentos

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O caçador de talentos

Já se sabe que é um especialista na valorização de ativos. Ao longo da carreira, Jorge Jesus tem-se tornado num mestre a tirar coelhos da cartola e a “inventar” novas soluções dentro das suas equipas, capazes de suprir as necessidades do plantel que tem à disposição. Este ano, a façanha repetiu-se novamente.

A tarefa do técnico benfiquista não se adivinhava fácil. As saídas dos médios titulares Javi García e Axel Witsel, mesmo em cima do fecho do mercado, assim como o castigo de dois meses atribuído a Luisão e a falta de um lateral-esquerdo de raiz na equipa faziam perspetivar muitas dificuldades, principalmente no plano defensivo, já que foi o sector com maior número de baixas no arranque da época.

Mas Jesus encarou os problemas como desafios. Olhou para os jogadores que compunham o plantel e encontrou soluções, algumas delas improváveis, que começaram a dar frutos. Hoje até se pode dizer que conseguiu multiplicar o número de opções no plantel do Benfica, dada a polivalência que identificou em alguns atletas.

Adecisão mais polémica foi a colocação de Melgarejo no lado esquerdo da defesa. O treinador viu no paraguaio as características ideais para a função. As críticas nos primeiros jogos choveram de imediato. Porém, o tempo vem dando razão a Jesus, já que o jogador adaptou-se à posição e está a ser uma revelação. E o português Luisinho, outro lateral adaptado, sempre que é chamado à titularidade, também tem estado à altura do desafio.

No entanto, a maior dor de cabeça de Jesus terá sido colmatar as perdas de Javi García e Witsel. Matic foi o escolhido para a posição de trinco e tem cumprido com segurança a sua missão, a defender e a iniciar o processo ofensivo. E, na sua ausência, o jovem André Almeida, que também alinha a defesa-direito, começa a ser uma opção a ter em conta.

Por seu turno, na posição 8, Enzo Pérez foi uma agradável surpresa. O argentino, que jogava (e joga) em terrenos mais avançados, não estranhou o lugar e tem rubricado excelentes exibições, fazendo uso da sua grande entrega e qualidade técnica. Jesus tem ainda Carlos Martins e André Gomes. O primeiro tem estado limitado pelas lesões, enquanto o segundo é uma aposta pessoal do treinador. André Gomes tem potencial, bons pés e é capaz de dar profundidade ao ataque. A inexperiência ainda se nota, mas só a jogar poderá confirmar as qualidades que lhe auguram.

O Benfica soube acautelar igualmente a ausência de Luisão. Enquanto o castigo do brasileiro não era conhecido, Jesus foi dando minutos a Jardel na equipa B, preparando-o para a titularidade na equipa principal. E o central ganhou ritmo de jogo e correspondeu em pleno, assumindo-se como opção fiável para o centro da defesa.

A forma como Lima pegou de estaca no onze titular também tem o dedo do treinador. Jesus soube tirar rápido rendimento do brasileiro, usando-o como uma espécie de “joker” do onze titular. Dada a sua mobilidade e faro de golo, Lima pode jogar sozinho na frente, ao lado de um jogador mais posicional como Cardozo ou com a versatilidade de Rodrigo.

Rápida capacidade de regeneração. O Benfica teve de a ter. Jorge Jesus manteve a sua equipa competitiva, sobretudo no plano interno, e lançou bases para o crescimento de novos jogadores que, quem sabe, poderão valer novos negócios milionários. Há muito mérito do treinador encarnado na forma como lapida e valoriza a sua matéria-prima.

O CRAQUE

Este é o ano de afirmação plena do portista James Rodríguez. O colombiano está a confirmar todas as suas qualidades e, agora que Hulk não está no FC Porto, não teve problemas em assumir maior protagonismo na equipa. Os golos e as assistências surgem-lhe com assídua naturalidade. Nas alas ou no meio-campo, com a bola nos seus pés, o futebol dos dragões ganha outro encanto. O seu rendimento está mais consistente e não tem tantos altos e baixos. Não admira a cobiça dos tubarões europeus. El Bandido está talhado para grandes voos.

A JOGADA

Cumprido o castigo relativo ao caricato caso de indisciplina em que esteve envolvido, o central Luisão está de regresso às opções do Benfica. O capitão encarnado será um reforço de peso para esta fase da época, na medida em que se aproximam os momentos decisivos da Liga dos Campeões, que incluem uma visita a Nou Camp, e os importantes jogos com Sporting e FC Porto a contar para o campeonato. O regresso do líder será um fator de motivação para os companheiros e um apoio importante para jovens que começam a aparecer na equipa.

A DÚVIDA

Para lá do incentivo financeiro, não se compreende o que levou os responsáveis da Federação a realizar um jogo no Gabão. O momento desportivo da Seleção não é o melhor, pelo que a escolha aconselhava prudência. Frente ao Gabão, num clima diferente e terreno em péssimas condições, foram 90 minutos perdidos. O teste de novas soluções não resultou, a motivação dos portugueses não existiu e o resultado foi miserável, por muito respeito que os esforçados gaboneses nos mereçam. Fez algum sentido viajar para África e colocar o prestígio da Seleção portuguesa em causa?

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