O caminho de Hélder Postiga
1. A expressão inocente contraria o essencial do avançado de corpo inteiro, candidato assumido a goleador de época; o ar de menino bem comportado serve mesmo para atrapalhar a concepção de jogador adulto e cada vez mais perfeito em tudo aquilo que faz; a aparente ausência de velocidade é apenas uma falsa questão, como se prova a cada instante pela forma como utiliza o corpo para defender posição, utiliza o toque sempre com segundas intenções e se desmarca inteligentemente... Hélder Postiga é um ponta-de-lança indiscutível (a baliza é o objectivo de cada movimento) e acrescenta a esse jeito especial de tornar fácil o acto mais difícil do futebol (o golo) argumentos técnicos próprios de um médio de ataque (paixão pela bola) e até de um extremo (drible, sentido colectivo, critério e qualidade no passe).
2. Postiga é um caso absolutamente anormal na relação entre a idade que tem e a gama de recursos que apresenta – mais vasta, segura e diversificada a cada dia que passa. Na fase da ilusão e do despertar de qualidades, quando se espera apenas a revelação do estilo e a projecção do talento, com vinte anos acabados de fazer ele tem superado todas as expectativas, não tanto por confirmação da qualidade já anunciada, mas sobretudo pela forma adulta como a expressa. É só olhar para ele: não é vulgar ver um avançado tão novo dominar tantas e tão complexas situações do jogo; ter a habilidade de escolher sempre a melhor opção para cada momento, sempre despojado de instintos egoístas; ser hábil perante os mais variados obstáculos, tornando indiferente o lugar do espaço de ataque em que é confrontado com qualquer dificuldade.
3. A dimensão superior do seu jogo, bem visível no arranque da nova época, tem relação íntima com uma determinada maneira de ser homem e estar no futebol. Postiga acumula informação a cada instante, justamente por saber que não pode viver sem ela, razão pela qual tem todos os sentidos apurados; não perde o saber mas também não o aplica de imediato; resiste à tentação de despejar logo o saco e prefere dar um tempo a si próprio para ordenar, rever e testar o conhecimento sobre toda a matéria que assimilou. Trata-se, no fim de contas, do jeito especial para aprender com os erros, essa bênção trazida do berço, estimulada pela educação e que, normalmente, transforma bons jogadores em talentos grandiosos.
4. Quando tiver maior precisão nos gestos técnicos, imprescindível para aumentar confiança, perigo e qualidade global de goleador; quando atingir a maturidade plena, que diminuirá a margem de erro em cada decisão; quando dominar, por experiência, a comprometedora surpresa com que ainda reage a certas contingências do jogo, será um avançado para a história – o Euro-2004 vai surgir em pleno processo de crescimento. Se Postiga avança ao ritmo do que aprende, alimentando assim a inteligência guardada no cérebro prodigioso e a eterna ambição de ser cada vez melhor, Cristiano Ronaldo tem o mesmo destino embora esteja obrigado a ir por caminho diferente. Para o jovem leão a receita é outra: moderar ímpetos sem danificar a essência; orientar o crescimento sem desvirtuar o código genético; aproveitar o talento silvestre e genial fazendo-o reverter em prol de um bem comum – a propósito, viram o terceiro golo do Sporting com o Bétis?
