O caminho que Melga fez a voar

Adicione como fonte preferencial no Google
O caminho que Melga fez a voar
O caminho que Melga fez a voar

Se mantiver a inteligência para assimilar o que Jorge Jesus tem ainda para lhe ensinar, Melgarejo pode transformar-se num lateral-esquerdo apetecido à escala planetária.

1 - Dizem os especialistas da guerra que a retirada é a mais difícil das manobras militares. No futebol, como atividade que gira à volta da bola, a questão coloca-se da seguinte forma: como sobrevive uma equipa quando deixa de ter a iniciativa? Para Jorge Valdano tudo depende da organização que mantiver no momento em que perde o bem mais precioso do jogo. Por isso é fundamental sincronizar todos os elementos do exército, de modo a evitar que uma decisão individual errada, um passo em falso ou uma simples desatenção permita ao inimigo invadir territórios que, por força das circunstâncias, se encontram desguarnecidos ou mesmo desarrumados. O papel dos defesas-laterais nesse momento específico da luta é determinante para o equilíbrio das equipas.

2 - Melgarejo tem velocidade de deslocamento, de reação e de iniciativa; conduz bem a bola e tem talento para tomar decisões imprevisíveis e contundentes quando chega à zona de finalização. Mas para jogadores que, como o goleador do Paços de Ferreira em 2011/12, fazem a viagem da frente para trás, o problema não é quando chegam ao outro lado do campo, porque para isso estão apetrechados com as armas de toda a vida; a dificuldade maior é acertar e articular a ação com as movimentações defensivas (individuais e coletivas); é, depois de irem, saber quando precisam de voltar; ou, depois de voltarem, acertarem o momento em que podem tornar a ir. Um dos problemas para Melgarejo foi interpretar o papel na tal manobra de retirada, na certeza de que está ainda a formatar a alma de defesa que nunca teve.

3 - Porque teve de reciclar o modo de jogar, o tempo é tão importante quanto os ensinamentos do treinador e a sua disponibilidade para prosseguir a aprendizagem. Melgarejo decide cada vez melhor em ação defensiva, porque sabe utilizar o corpo nos duelos individuais e guarda com precisão cada vez maior as distâncias de segurança relativamente aos adversários diretos. Em situações padronizadas orienta-se pelos ensinamentos recentes; nas outras segue o instinto, a velocidade de ponta da inteligência, que não o tem deixado ficar mal. Ainda agora, em Leverkusen, no último lance do jogo, foi dele o movimento que antecipou o perigo e o gesto técnico perfeito, de cabeça, a evitar, debaixo dos postes, que a bola seguisse para a baliza. A intervenção foi decisiva. O momento foi espetacular.

4 - Melgarejo aperfeiçoou o jogo posicional e a abordagem aos duelos individuais; depurou a capacidade para atuar e agir longe da bola e a eficácia das diagonais defensivas; tornou-se ainda mais forte no jogo de cabeça e mais correto nas tomadas de decisão em situações táticas delicadas. Falta-lhe agora concluir o processo de construção como defesa-lateral de alto nível, embora já tenha percorrido, a voar, um longo e delicado caminho que lhe dá margem para encarar o futuro com otimismo. Se continuar a adquirir competências que não tinha, sem perder as que lhe preenchiam o disco rígido; se mantiver a inteligência para assimilar o que Jorge Jesus tem ainda para lhe ensinar, sem se dar por feliz com tudo quanto já adquiriu, Melgarejo ainda vai a tempo de transformar-se num lateral-esquerdo apetecido à escala planetária.

Esse fenómeno de parar no ar

CR7 saltou a mais de 1 metro do chão, ficou lá em cima, cabeceou e fez um golo magistral

Um dia, o eterno António Feliciano, torre de Belém e um dos grandes centrais portugueses de sempre, confidenciou que, no início da década de 50, depois duelos extraordinários com Peyroteo nos anos 40, sentiu que estava a perder qualidades. Para o campeão nacional pelo Belenenses, o problema foi quando apareceu (1950) o jovem José Águas: “Ele saltava e eu saltava também; o problema é que eu caía e ele continuava lá em cima.” Não se sabe o que pensa Evra sobre o lance em que foi sobrevoado por CR7. A não ser que, talvez por medo das alturas, nem coragem teve para saltar.

Vítor e Josué são aves raras

Os dois primeiros golos do P. Ferreira em Braga deviam figurar numa antologia do futebol

O terceiro também mas nesse o cruzamento de Diogo Figueiras beneficiou do desvario defensivo bracarense. Já nos lances anteriores o mérito foi exclusivo da visão e do talento de Vítor e Josué. Um levantou a cabeça e executou passe delicioso para um golo fácil; o outro, sempre em velocidade, teve o requinte de fazer a bola passar sobre toda a gente até chegar à cabeça do mesmo Hurtado. O P. Ferreira começou por ser obra de treinador e fenómeno de conceitos assimilados; hoje é também uma equipa com nomes próprios, na qual Vítor e Josué são artistas principais e aves raras na Liga.

Um caso sério chamado Bebé

Pode não triunfar em Inglaterra mas tem tudo para ser grande figura em Portugal

Enquanto permanece o mistério da transferência que o levou para o Man. United, desfrutemos do seu futebol esplendoroso ao serviço do Rio Ave. Bebé tornou-se caso sério porque acrescentou muita qualidade a uma equipa que, antes da sua chegada a Vila do Conde, já discutia lugares acima das expectativas. No golo à Académica sintetizou o perfil de jogador rápido, com boa articulação motora, confiante a roçar a insolência e sereno a tomar a decisão final. Em Coimbra reclamou a autoria da obra; mas na maioria das vezes, sendo ele a pintar o quadro, permite que sejam outros a assiná-lo.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade