O campeonato, o Benfica, Jesus e Vitória

O campeonato foi disputado como não me lembro. Sei que houve. Mas não lembro de outro assim: disputado até à última jornada, incerto até à última metade do último jogo. Isso é bom. Faz o futebol mais interessante. E mais vibrante. Foi bom para o Benfica; e foi bom para o Sporting. Foi bom para a Liga. Foi vitaminas.

No domingo, o que se decidia era isto: o tricampeão ia ser o Benfica? Ou seria Jorge Jesus?

O simples enunciado da dúvida escancara o caráter demencial de alguns debates para esquecer que se travaram ao longo da época. Tivesse o Sporting ganho e alguém apareceria a dizer que Jesus era tricampeão. Talvez ele mesmo o dissesse. Essa é provavelmente uma das razões por que o não foi: ocupou-se mais de si e do Benfica do que apenas do Sporting.

Às vezes, deu ideia de, para si, ser mais importante o Benfica não triunfar do que o Sporting vencer. Esse antagonismo tão marcado contra o clube que serviu durante seis anos, onde teve sucessos e que o projetou, diz muito de uma personalidade – e não é bonito. O seu insucesso fez justiça.

O Sporting fez, é certo, um belo campeonato. Jesus melhorou-o muito, olhando à época anterior. Mas o Benfica foi melhor. Por isso, campeão. Jesus focou exclusivamente o Sporting no campeonato – e acabou não ganhando nada. Isso jamais seria possível na cultura do Benfica. O Benfica entra sempre para ganhar tudo, ainda que possa vir a nada ganhar – a última vez que aconteceu foi aquela frustração de 2012/13, com Jorge Jesus. Agora, Rui Vitória foi campeão, pode vencer a Taça da Liga e só caiu nos quartos-de-final da Liga dos Campeões, frente ao poderoso Bayern.

Jorge Jesus é indiscutivelmente bom treinador. Cresceu no Benfica e pode continuar a consolidar-se e afirmar-se. Mas Rui Vitória mostrou ser melhor. Não é só ter sido campeão. É ter valorizado recursos mais verdes e mais limitados, é ter sabido puxar por gente nova, é ter conseguido suprir saídas relevantes e lesões em momentos críticos da temporada, é ter aguentado a exigência de várias competições – e, ainda assim, ter sido campeão logo no primeiro ano a este nível e no Benfica.

Falta a Jorge Jesus um atributo para ser muito bom: não pensar com azedume. E falar menos. Pela boca morre o peixe – e outros também.

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