O capítulo 100 de uma lenda
1. A bola foi o primeiro amor e, ao mesmo tempo, o mais forte incentivo ao sonho; na rua estimulou a imaginação para superar medidas abaixo dos mínimos exigidos - quilos e centímetros a menos - mas, porque não podia vencer sozinho a batalha da mediocridade, só pela visão de terceiros encontrou palcos adequados a tão grande talento. Fiel ao código genético, nunca traiu o instinto; prova de inteligência, não rejeitou o ensino académico, a palavra dos mestres e o sacrifício do treino. Recuperando uma definição que retrata Di Stefano, Luís Figo é um duplo craque - por nascimento e por trabalho. Só assim o miúdo que teve de reclamar o direito a ser futebolista se transformou, em pouco tempo, num dos expoentes máximos da sua geração; só assim o melhor jogador português dos últimos 30 anos conquistou um lugar na história do futebol mundial.
2. A expressão do seu jogo avassalador é produto de argumentos técnicos riquíssimos, do temperamento indomável e do físico exuberante construído pelo caminho. Quando regulou velocidade e precisão, acrescentou músculo ao drible e passou a tratar o golo por tu, tornou-se uma preciosidade; quando o processo de limpar adversários da frente foi enquadrado com as necessidades da equipa, garantiu um lugar entre os deuses. A arte de Figo consiste em impor-se pelo engano dos olhos mentirosos, da cintura maleável e das pernas que alimentam os efeitos de travagem e aceleração; mas só quando aprendeu a falar verdade, valorizando a perfeição do cruzamento ou do passe fatal, atingiu a plenitude dos recursos que há muito lhe conferem a aura de génio.
3. À entrada para o último troço da carreira acompanhou a tendência universal do futebol e dimensionou o fenómeno que já deixou marcas à escala planetária: manteve fantasia junto às linhas mas aproximou-se do centro de operações; não perdeu o atrevimento das iniciativas individuais mas interpreta cada vez melhor o senso comum que põe a máquina a funcionar; preserva o estilo de origem mas reciclou a intervenção no jogo, alargou o campo de acção e diversificou a influência. Figo concede à beleza a virtude ganhadora que outros só atribuem ao pragmatismo; sem pôr em causa a harmonia de gestos e movimentos continua a dar satisfações à estatística; porque respeita os requisitos emocionais do futebol como espectáculo é notável a generosa oferta de eficácia e regularidade.
4. Na próxima semana, com a Inglaterra, a lenda terá um novo capítulo: a 100ª internacionalização A. Aproveitemos o número redondo para recordar com respeito, orgulho e admiração a carreira do futebolista português que mais se aproximou, em prestígio internacional e qualidade absoluta, do território sagrado de Eusébio. Figo é a memória de três décadas de futebol em Portugal, o mito que concentra magia de Chalana, explosão de Futre, talento de Oliveira, visão de Alves, carácter de Gomes, liderança de Humberto e o conceito de arte ligado ao golo que unia, em frieza e paixão, Nené, Jordão e Manuel Fernandes. Já tem o conforto de um passado grandioso e suscita, no presente, a esperança de um amanhã ainda mais brilhante. Ouvida a sentença da História, não precisa de se preocupar com o futuro: é um jogador eterno.
Passe curto
Sofrer com a razão: Freddy, que raramente acaba o que começa, fez um golaço no Dragão - e Mourinho sofreu com a razão que teve quando o trouxe para a SuperLiga. Armando esteve nos dois golos que derrotaram o sogro Inácio - e o míster confirmou que o rapaz é melhor do que parece.
Uma esperança para Niculae: Niculae e Lourenço substituíram Silva e Sá Pinto - e os adeptos não aprovaram as mudanças. Como um fez o empate e o outro pôs o Sporting a ganhar, Fernando Santos recuperou o crédito. Uma palavra para Niculae: agora que deixou de ser um caso clínico e voltou a fazer parte da solução, revelou-se disponível, solto, confiante e motivado. Promete não ficar por aqui.
O crime perfeito: O gilista Ferreira simulou escandalosamente o contacto com Quim, o guarda-redes do Sp. Braga. Caiu com dor e olhou para o juiz; levantou- -se, marcou o golo e correu como louco para a festa. À falta de justiça a sério, cartão amarelo para o árbitro.
O valor da liberdade: Mourinho fez da entrada de Carlos Alberto frente à U. Leiria um momento solene. Os cuidados com os espíritos mais livres nunca são excessivos porque, normalmente, são eles que fazem a diferença. E o segredo para aproveitar o seu talento não é tirar a liberdade mas ensinar a usá-la. O brasileiro pode dormir descansado: está em boas mãos.
Portugal-Inglaterra em dose dupla
O jogo entre as selecções dos dois países, no próximo dia 18 no Algarve, lança o duelo de gigantes entre FC Porto e Manchester United para a Liga dos Campeões. Os ingleses têm muito poder mas falta-lhes ideias; têm muita qualidade individual mas a equipa funciona aos solavancos. O FC Porto vive mais tranquilo e, enquanto não aparecem as individualidades, impõe-se em todas as frentes com argumentos colectivos. Nos pratos da balança, o azul e branco, a esta distância, leva ligeira vantagem.
