O defesa-lateral
POLIVALÊNCIA – A questão da polivalência remonta ao tempo em que a táctica, a ocupação racional dos espaços, a preocupação com as características dos futebolistas e a estratégia do adversário passaram a ser mais valorizadas. O tempo apenas acentuou a necessidade e as virtudes do conceito que os anos 70 transformaram em factor determinante face às exigências cada vez maiores da competição. Como princípio, o treinador adora que um jogador actue em várias posições; o jogador aproveita para ganhar o seu espaço na equipa, mesmo que nem sempre no mesmo lugar; o adepto respeita a sua capacidade de adaptação e a disponibilidade para se entregar à causa de alma e coração. Mas a polivalência, em si mesma, não é uma virtude, ao contrário do que pode parecer. Mais importante que jogar em vários sítios do campo é fazê-lo bem.
DESPRESTÍGIO – Vem isto a propósito de uma realidade cada vez mais preocupante: o defesa-lateral é, hoje em dia e de forma quase escandalosa, o menos prestigiado dos jogadores de futebol. Talvez por não ser uma função estimulante ou por não ser fácil definir trabalho específico para o tornar mais forte, não existem muitos de qualidade no Mundo inteiro – e continuam a ser raros os casos de miúdos que se sentem vocacionados para desempenhar a função. Causa ou consequência, alguns treinadores agem com leveza na construção das equipas: na zona recuada, sobre as faixas laterais, vêem apenas um espaço que é preciso ocupar e para onde mandam quem estiver mais a jeito. Em plena fase de globalização, os especialistas ainda não tiveram a última palavra.
REGRA – Portugal é um bom exemplo para juntar à regra: Beto tem sido o lateral-direito do Sporting – César Prates, afinal, é menos bom do que se pensava; Caneira, o melhor defesa do Benfica em toda a época, tem sido bola de pingue-pongue da esquerda para a direita, sem parar onde se sente mais à vontade – Pesaresi não tem qualidade, Cabral está lesionado, Quim Berto e Diogo Luís foram emprestados, Jorge Ribeiro voltou à equipa B; à falta de Mário Silva, Soderstrom desenrasca ali hora e meia a fazer das tripas coração para travar o extremo-direito adversário. No que toca à selecção nacional, convém recordar que Abel Xavier, Frechaut, Secretário e Bilro, apesar da experiência, são apenas adaptações bem conseguidas; Rui Óscar e Nuno Valente são especialistas à procura de espaço e Dimas tenta não perder o comboio. Resta, de facto, Rui Jorge.
RUI JORGE – O seu caso é, provavelmente, o mais interessante, porque sendo, de longe, o melhor de todos, também não é um lateral de raiz. Mas o seu caso é diferente de outros que ali foram parar por exclusão de partes. Rui Jorge é um excelente jogador, com boa técnica individual, que se desembaraça bem dos adversários, passa com critério, remate bem à baliza e joga de cabeça levantada. Mas não é perfeito a defender, não tem características físicas para aguentar sucessivos "sprints" pelo flanco, de modo a ganhar a linha de fundo uma dezena de vezes por jogo e cruzar com perfeição. Tem drible, não é lento, mas falta-lhe a mudança de velocidade, nada que não consiga disfarçar com perfeição agora que está no auge da carreira. Prova de que a insatisfação é eterna, nada melhor que terminar com um exemplo ao contrário: o de alguém que é jogador de mais para ser lateral.
