O dérbi nas mãos deles

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O dérbi nas mãos deles
O dérbi nas mãos deles

1 - O estilo no futebol é a extensão da sensibilidade dos adeptos e o reflexo de valores a que podemos chamar cultura. Nas raízes e na sua expressão prática estão agregados o orgulho de uma ideia, de uma opção estética e de um modelo representativo do pulsar da gente. Diz-se que o futebol não substitui a realidade, razão pela qual, em tempo de crise, austeridade e insensibilidade vergonhosa ao sofrimento do povo, ainda há quem se agarre a uma paixão lúdica para descobrir a felicidade. A primeira lição a tirar é que tudo quanto interfere nos sentimentos e nas emoções do Homem tem consequências difíceis de explicar. Os amantes da bola envolvem-se desde a bancada e do sofá, jogando por delegação com a força e a alma que deviam ter na defesa de valores muito mais importantes na vida.

2 - O dérbi eterno está à porta e o país prepara-se para experimentar sensações únicas. O lado verde e branco da história, que vive o desconforto de meses de desatino, está mais acossado. Fora da Europa e da Taça de Portugal, e com situação impensável na Liga, resta ao Sporting reunir todas as vontades para minorar os estragos de uma campanha que tem posto a nu todos os erros de gestão e a megalomania de um projeto que, sabemos hoje, não tinha base organizativa, financeira e técnica a sustentá-lo. O dérbi é mais uma oportunidade para a redenção de um exército que, não sendo extraordinário, tem muito mais qualidade e competências do que os números indicam. Frente ao rival, os leões jogam o orgulho, a honra, a felicidade mas também o futuro: estão a 6 pontos do Sp. Braga, logo têm a Champions na mira.

3 - Para o Benfica, a visita a Alvalade representa momento solene para reafirmar a candidatura ao título. Os encarnados têm um plantel tão heterogéneo como o rival, composto por elementos de qualidade, oriundos das mais diversas origens, que se entendem pela linguagem universal do futebol mas cujos vínculos aos alicerces do clube que representam são muito mais voláteis. A Luz sofre com a ausência de portugueses no onze (em condições normais, o dérbi terá apenas um português em campo – Rui Patrício) e vive a nostalgia dos tempos em que a equipa evoluía de acordo com o meio e segundo os padrões históricos e plásticos que a ligavam às origens. A diferença é que Jorge Jesus recuperou esses valores ancestrais de identificação coletiva utilizando argumentos que, em teoria, servem apenas para enaltecer qualidades profissionais.

4 - Uns e outros terão é de responder a questões pendentes: que ideia vão defender? Serão capazes de transformar o jogo numa festa ou irão deixá-lo cair numa batalha? Farão dele um hino à criatividade e iniciativa ou amarrar-se-ão a sistemas repressivos? Darão ao país um espetáculo digno da centenária rivalidade ou estarão disponíveis para cair na especulação e procurar a vitória de qualquer maneira, com batota, picardia e demais grosserias? Vercauteren procura ainda unir pontas dispersas, dar-lhes sentido e potenciá-las em competição; tenta ajustar ideias à qualidade e características dos jogadores, pelo que deverá ser mais cauteloso na abordagem. É esse atraso leonino na definição da equipa e seus comportamentos que dá a Jorge Jesus mais armas para comandar as operações. O dérbi está nas mãos deles.

A simplificação de André Gomes

Os jovens são mais vulneráveis aos temores das exigências, embora haja maravilhosos irresponsáveis que agem aos 19 anos como se tivessem 35. Não custa imaginar Jorge Jesus a alertar André Gomes para o que estava em jogo, frente ao Barcelona, em Camp Nou, a contar para a mais importante competição europeia de clubes. A tudo o miúdo terá respondido que “sim, míster, esteja descansado”. A notável exibição do médio prova que, no meio da complexidade e da grandeza do que está em causa no futebol, ainda há quem consiga transformá-lo numa coisa simples. Esses são os craques.

Otamendi já é uma das estrelas

Otamendi leva um conjunto de exibições suficientemente convincentes para já ser considerado uma das grandes estrelas da Liga. O argentino tem confirmado atributos sul-americanos (a contundência na chegada à bola e aos adversários acima de todos) e junta-lhes agora capacidade de resposta tática às exigências em vigor no futebol europeu. Sendo um jogador que cumpre todas as obrigações individuais, sabe articular-se com a manobra coletiva, nomeadamente com o parceiro do lado. É um daqueles líderes silenciosos que, sem alardes, faz tudo bem e é um exemplo para os companheiros.

Ninguém resiste a defender assim

Uma das razões para o insucesso europeu e os 9 pontos de atraso em relação a FC Porto e Benfica tem a ver com a menor qualidade do sector defensivo comparado com as soluções do meio-campo para a frente. Saber defender é uma causa coletiva, defender bem depende da excelência individual. Peseiro deve melhorar os alicerces do primeiro princípio mas terá mais dificuldade em garantir o segundo – precisa de melhores jogadores. Na Liga, o saldo é de 14 golos encaixados em 10 jogos; na Champions foi de 13 em 6. Ninguém resiste no topo com 27 golos sofridos em 16 jogos.

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