Opinião

Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

O desporto está a ficar velho?

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O maior desafio do desporto pode não ser financeiro. Pode não ser tecnológico. E pode nem sequer estar dentro do campo. Pode estar na idade dos seus adeptos.

 Durante anos, o crescimento do desporto foi tratado como uma inevitabilidade. Os pais levavam os filhos aos estádios, os filhos tornavam-se adeptos e o ciclo repetia-se. Hoje, essa lógica já não pode ser assumida como garantida. Pela primeira vez, muitas modalidades enfrentam uma pergunta desconfortável: quem serão os seus consumidores daqui a vinte anos?

 O problema não é apenas português. É global. Enquanto as organizações desportivas discutem receitas, investidores ou inteligência artificial, a batalha mais importante está a acontecer na atenção das novas gerações.

 O consumidor de 20 anos vive num ecossistema radicalmente diferente daquele em que cresceram os adeptos atuais. O desporto já não compete apenas com outras modalidades. Compete com Netflix, YouTube, TikTok, Twitch, Spotify, videojogos e milhares de criadores de conteúdo.

 Os números ajudam a perceber a dimensão da mudança. A ATP anunciou recentemente que os jogadores masculinos ultrapassaram os 110 milhões de seguidores combinados nas redes sociais e que os canais da organização geraram 3,3 mil milhões de visualizações de vídeo num único ano. O tráfego do ATP Tour cresceu 56% e os torneios aumentaram as suas audiências sociais em 20%.

 Estes números não falam apenas de ténis. Falam de adaptação. O ténis percebeu que o futuro não depende apenas da competição. Depende da capacidade de criar ligação permanente com os fãs. Os novos consumidores não querem apenas assistir. Querem seguir bastidores, acompanhar histórias, consumir conteúdos curtos e sentir proximidade com os protagonistas.

 A Fórmula 1 compreendeu o mesmo fenómeno. Wimbledon também. A edição de 2026 recebeu um recorde de 550.151 espectadores e gerou 4,8 mil milhões de impressões nas redes sociais, além de 3,2 mil milhões de visualizações de vídeo. A audiência digital única atingiu 138,5 milhões de pessoas.

 O objetivo deixou de ser apenas encher bancadas. Passou a ser conquistar tempo. E é aqui que surgem os maiores riscos para várias modalidades tradicionais.

 Uma modalidade pode ter boas audiências televisivas hoje e estar simultaneamente a envelhecer a sua base de consumidores. Pode parecer saudável nos indicadores financeiros e estar a perder relevância entre os mais jovens. Pode ter patrocinadores satisfeitos no presente e um problema sério de renovação geracional no futuro.

 A questão mais importante deixou de ser quantas pessoas assistem. Passou a ser quem está a assistir.

 Porque as novas gerações não rejeitaram o desporto. Rejeitaram algumas das formas tradicionais de o consumir. Continuam a procurar competição, comunidade, entretenimento e inspiração. Fazem-no apenas de outra forma: mais digital, mais personalizada, mais social e menos dependente de horários rígidos.

 Por isso, o verdadeiro indicador de saúde de uma modalidade não é o contrato televisivo que assina hoje. É a capacidade que tem de conquistar alguém que nasceu em 2010. O desporto nunca teve tantos dados sobre os seus adeptos. Nunca teve tantas plataformas para comunicar. Nunca teve tantas ferramentas para chegar aos jovens.

 Mas nenhuma tecnologia resolve um problema de relevância. Porque uma modalidade não começa a perder quando perde uma final. Começa a perder quando deixa de conquistar a próxima geração de adeptos.

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