O destino de Rui Patrício
1 - De pouco vale a juventude e a origem de um jogador, porque o adepto, quando olha para o relvado, não pergunta a idade nem quer saber o nome da escola em que se formou. Reclama compromisso, procura talento e exige vitórias, muitas vezes indiferente a especificidades que deviam atenuar o nível de exigência que lhe está na massa do sangue. A experiência ajuda a controlar os nervos e a ansiedade mas há maravilhosos inconscientes que, aos 18 anos, jogam e vivem no topo do Mundo como se estivessem na rua deles. Rui Patrício cresceu e formou-se enquanto exercia debaixo de enorme pressão. Falhou mas nunca tremeu por defender uma potência como o Sporting, cuja baliza é considerada um tesouro para quem lhe delegava tarefa de altíssima responsabilidade, logo desfasada do adolescente que foi até há bem pouco tempo.
2 - Aos 24 anos, Rui Patrício tem ultrapassado todas as etapas de um caminho que corresponde ao destino traçado por Paulo Bento, em 2006, quando lhe abriu as portas da afirmação ao mais alto nível. Desde então desenvolveu talento cometendo erros; custou pontos mas continuou a evoluir; aproximou-se do auge e mostra cada vez mais argumentos para se manter por lá. Não foi génio precoce a triunfar numa tarefa interdita a menores. Foi um miúdo metido com os seus botões que, num contexto de exigência extraordinária, resistiu a tentações exibicionistas próprias da idade, à desconfiança que as bancadas geraram à sua volta e à as consequências da luta com Stojkovic, o autoproclamado melhor da Europa que, no cômputo geral, não lhe chega aos calcanhares.
3 - Foi em dificuldade, sem reunir consenso, que Patrício fez a graduação como jogador e, acima de tudo, deu os passos necessários para se formar como homem. Porque uma coisa está ligada à outra, é hoje um futebolista melhor e um homem diferente, com mais horizonte para a vida, que adaptou competências desportivas e até aprendeu a lidar com a imprensa cor-de-rosa. O tempo tem cumprido o dever de depurar-lhe qualidades globais para manter a serenidade no modo como governa a área e guarda o cofre de potências como Sporting e Seleção. É impressionante como, sendo ainda jovem, aperfeiçoou o estilo adulto de quem se adianta ao tempo e aos factos, razão pela qual não precisa de fazer milagres para cumprir bem a missão.
4 - O futuro de Rui Patrício depende muito da vontade do Sporting e do valor das propostas que chegarem a Alvalade. O povo leonino, que acreditou nele mesmo depois de algumas deceções, merece agora deliciar-se com a expressão deslumbrante de um dos três melhores do Mundo da sua geração, a par do alemão Neuer (26 anos) e do espanhol De Gea (22). Mas mesmo que vejam partir uma das últimas joias preciosas formadas em Alcochete, os sportinguistas deverão reconhecer o essencial: assistiram ao início de um ciclo que, em condições normais, conduzirá o número 1 português ao estatuto de guarda-redes mais internacional de sempre – em meia dúzia de anos ultrapassará os 80 jogos de Vítor Baía – e a membro honorário da nobre dinastia dos príncipes das balizas portuguesas.
