O destino fatal de um prodígio
1.Quando Alex Ferguson o chamou para lhe despejar na cara vastíssimo rol de recriminações sobre o que fizera num dos primeiros jogos pelo Manchester United, Cristiano Ronaldo ouviu em silêncio, mais surpreendido que reverencial, aquilo que o mestre tinha para lhe dizer. Sir Alex estava irritado e não se calou durante perto de cinco minutos, fundamentando, nem sempre com bons modos, que pouco ou mesmo nada do que o jovem aprendiz fizera na véspera respeitava as suas concepções. Coube ao treinador encerrar o monólogo perguntando se tinha alguma coisa a dizer em sua defesa; coube ao jogador responder que não e sair do gabinete esmagado pela suspeita de que o sonho de glória acabara antes de começar – caíra afinal num filme de terror em cujo elenco desempenhava o papel de vítima a triturar sem dó nem piedade.
2.Já tinha andado alguns metros nos corredores de Old Trafford quando ouviu de novo a voz do mister. Ferguson queria clarificar definitivamente uma questão (”percebeste o que eu disse?”) e dar-lhe um conselho (”é bom que tenhas entendido, porque amanhã vais ser titular”). Nesse instante, contrário aos hábitos de um ano inteiro a ouvir que era um fenómeno, para chegar ao fim-de-semana e ser suplente, Cristiano Ronaldo soube que estava em boas mãos; assimilou com a inteligência intuitiva própria dos grandes artistas, que a evolução não dependia das emoções efémeras de jogar de início ou entrar depois; de sair porque estava a jogar mal ou ser chamado para melhorar o que já estava bem. E entregou-se ao grandioso projecto que só será concluído, dentro de dois/três anos, quando for o melhor jogador do planeta.
3.Cristiano Ronaldo é um prodígio com 19 anos, sobre quem a bola, objecto pessoal e intransmissível, exerce o poder esmagador do regresso aos tempos não muito distantes da infância. Por juventude, temperamento irreverente e estilo futebolístico, ainda não apurou o sentido comum; nem viveu o suficiente para valorizar opções mais sensatas quando o cenário não é para brincadeiras; muito menos tem experiência para interpretar a realidade segundo a qual, sendo um génio, também há alturas em que se deve mascarar de jogador vulgar e inofensivo – o grande “boxeur”, por exemplo, não se caracteriza por ataques desenfreados mas pela perícia com que escolhe o momento para desferir os golpes fatais.
4.Na estrada que conduz ao reconhecimento universal, estão lançadas as bases do enquadramento futuro. A Ronaldo sobra talento, auto-estima, vontade de aprender e tempo para resistir ao embate com a imortalidade, destino fatal dos deuses maiores em qualquer actividade criativa; orientado pela saudável inconsciência que, nesta fase transitória, lhe assenta que nem uma luva, ainda tem músculo, altura, velocidade e resistência para dar e vender. Se no meio de tanta grandeza também exagera nos dribles, nos toques e nas acrobacias que incomodam os espíritos mais conservadores, é melhor não fazer recriminações: foram esses excessos, todos juntos, que permitiram a Portugal arrancar vitorioso para o Mundial’2006.
