O direito à defesa
OPERAÇÕES - Trazia na bagagem a esperada resposta a tantas questões pendentes. Era ao mesmo tempo uma conta de somar e outra de multiplicar: com Roger o Benfica seria mais forte, primeiro porque lhe acrescentava génio, depois porque a luz dos grandes talentos tem o hábito de iluminar a estrada por onde os outros caminham. Afinal, a magia esfumou-se num ápice e as operações aritméticas que provocou numa equipa em súbito estado de graça acabaram por ser as de lhe diminuir o sossego e apressar o fim de um sonho, que neste o caso significou devolve-la à realidade.
ALTURA CRÍTICA - Muitas são as dúvidas por esclarecer à volta de um jovem com pouco mais de 20 anos, precoce no crescimento, prodigioso em tudo o que faz em campo, ídolo incontestável no clube de origem, referência futebolística num país como o Brasil. Chegou envolvido em euforia mas numa altura crítica da sua vida particular; na hora do primeiro grande balanço deu por si a pensar que tinha vindo como solução e estava a constituir problema em equipa a desfazer-se e na qual era, a larga distância, o melhor e mais dotado de todos os seus componentes.
QUAL CRIME? - A pergunta tem legitimidade: mas que crime terá cometido Roger para não ter sequer direito ao benefício da dúvida? Qual a gravidade do seu comportamento para ser penalizado de forma tão violenta por uma época catastrófica que não pode servir de avaliação de qualidades nem de aferimento da sua estrutura humana? Como qualquer acusado, Roger deve ter o direito a defender-se perante o grande tribunal. Condenado ao fim de cinco meses de desvario colectivo, aconselhava o bom senso que pudesse apresentar os seus argumentos através de oportunidade em equipa mais forte, ou pelo menos composta por muito melhores jogadores.
RECOMPENSA - A sensação de erro é potenciada pela urgência de vitórias em clubes orientados segundo a lógica do risco a que obriga a pressão da espada e a distância cada vez menor da parede. Se constituiu um engano, Roger foi caro; se foi apenas gasto, reconheçamos o exagero; se foi investimento nem vale a pena dizer que perante as circunstâncias seria necessária paciência para ter o retorno. E aqui o caso do Benfica é exemplar: um clube com saúde, estável e seguro das suas intenções esperaria pela recompensa do talento. E nem lhe passava pela cabeça a dispensa, segundo erro em menos de meio ano.
MIL MANOBRAS - Sendo o tempo cada vez mais escasso, o Benfica ainda pode evitar o maior disparate: aceitar contrariado a integração do jogador no plantel, só porque não conseguiu envolvê-lo em alguma das manobras de mercado que tentou. Se é para vir com a noção de que não confiam nele e de que já existe alguém para o seu lugar, não vale a pena Roger dar-se ao trabalho de atravessar o Atlântico. E é justamente essa ideia de desperdício que fere a sensibilidade daqueles que mesmo sem terem visto tudo perceberam que estavam perante um génio do futebol.
