Opinião

Rui Dias Redator e repórter principal

O divórcio entre LFV e Jesus

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1 No extremo das emoções é mais fácil perceber a razão pela qual o adepto tem bandeiras e símbolos incorporados nos sentimentos mais puros que o ligam ao futebol. É nestes momentos que faz sentido refletir sobre o conceito de fidelidade, que remete para a memória da infância e para a busca de uma identidade; para o desejo de vingança, humilhação e realização pessoal difícil de concretizar noutro enquadramento. Não raras vezes, o adepto entende a camisola como pátria sem medir a curta distância que o separa do fanatismo – "derivado mais perigoso da intolerância", mestre Valdano dixit. É incrível como, no futebol, o homem se envolve com o empenho e a convicção que refreia na defesa de valores muito mais relevantes para a sua vida. Nada do que sucedeu em Portugal na última semana teve a importância da transferência de Jorge Jesus para o Sporting. Não é uma opinião, é um facto.

2 JJ pôs em causa a hegemonia portista de 30 anos; obteve os melhores resultados encarnados das últimas décadas; gerou riqueza e transformou um sonho em realidade. Parte em nome de um ciclo que, alegadamente, chegou ao fim, quando a verdade é que sai a meio de um processo que pode (ou não) inverter a tendência dominante em Portugal. Os clubes passam anos à procura do treinador certo e levam décadas para encontra-lo. Luís Filipe Vieira já não terá tempo para escolher outro de quem seja tão cúmplice e lhe dê tantos títulos. A opção por Rui Vitória não é consensual, logo encerra a discussão que Bruno de Carvalho evitou ao substituir um técnico especial (Marco Silva) por um especialíssimo. Ética e dinheiro à parte, foi um tremendo golpe desportivo.

3 Clarificou-se por fim que LFV se sentia desconfortável com o protagonismo de JJ. Na declaração após o divórcio, o líder fez questão de tornar pública a convicção de que não há imprescindíveis no clube, "apesar de alguns julgarem que o são", referindo-se ao homem que exerceu o cargo com reconhecida capacidade mas também com a insolência e os caprichos de quem se sente num patamar acima do bem e do mal. Não vai ser fácil ao Benfica viver com o fantasma de quem deu rosto a um dos ciclos mais vitoriosos de sempre, até porque a correlação de forças no futebol português já não corresponde aos tempos em que Mário Wilson afirmou, nos anos 70, que qualquer treinador que chegasse à Luz se arriscava a ser campeão. No último quarto de século essa probabilidade diminuiu tanto que quase desapareceu.

4 No solitário processo que tem caracterizado a escolha para seu general do banco, LFV concebeu o futuro do Benfica sem JJ. Para isso alimentou uma ambiguidade silenciosa: não o desejava na Luz mas o que queria mesmo era vê-lo fora de Portugal. Porque o projeto foi alterado, o perfil técnico não se encaixava e a relação entre ambos se esgotara, o presidente abdicou do treinador com mais títulos na história do clube. Se JJ venceu três Ligas em seis anos, para trás a águia conquistou as mesmas três em catorze (1991, 1994 e 2005). A dúvida levará um ano a ser desfeita: o Benfica venceu porque tinha sólida estrutura atrás de JJ ou porque beneficiou de talento, visão e competência de um dos melhores treinadores do Mundo? Esse é o mistério que alimenta o filme cujo primeiro capítulo está marcado para 9 de agosto. A Supertaça será elevada à dimensão de uma final da Champions de trazer por casa.

Pressão imensa sobre Rui Vitória

Paulo Fonseca baqueou face à pressão no FC Porto; Marco Silva superou o clima no Sporting

Rui Vitória vai treinar o Benfica. É um treinador de qualidade, sustentado na forma como reconstruiu equipas, umas atrás das outras, no V. Guimarães entre 2011 e 2015. Algumas dessas características são de enorme relevância para o novo projeto de Luís Filipe Vieira – vistas as coisas sob o ponto de vista humano, técnico e tático, é o homem ideal para o cargo. A dúvida reside, apenas, em saber se conseguirá ser o mesmo treinador num cenário de máxima pressão e bater-se com Jesus e Lopetegui. Veremos.

BdC condenado a ficar na história

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Bruno de Carvalho incompatibilizou-se com Marco Silva e, se o Sporting nadasse em dinheiro, tê-lo-ia despedido em dezembro. A relação estava condenada ao fracasso, razão pela qual era inviável preparar em conjunto a próxima época, por exemplo. Se tivesse resolvido com dignidade a saída do antigo treinador faria, em apenas dois anos de presidência, aquilo que muitos dirigentes nunca pensaram sequer em décadas de exercício: ser perfeito numa decisão de altíssimo risco. BdC está condenado a ficar na história do clube e até do futebol português. Falta saber se por bons ou maus motivos.

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Lopetegui mereceu a confiança de Pinto da Costa, mesmo sem nada ter ganho na estreia. Sendo a intuição a velocidade de ponta da inteligência, fez bem o presidente em não ceder à tentação derrotista. No atual cenário, dir-se-ia que o dragão era o grande favorito ao título de 15/16 mas há alguns espinhos no caminho: terá grande equipa, liderada por treinador competente, mas perderá Danilo, Casemiro, Oliver e Jackson e ainda não encontrou alternativas à altura. Enquanto não se souber quem são os substitutos é difícil ter opinião segura sobre a próxima temporada.

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