O elogio do crime

Adicione como fonte preferencial no Google

JOGAR – Há jogadores que se riem quando alguém entra em campo com o único objectivo de os marcar – como Figo e nem vale a pena explicar-vos porquê; há outros que jogam mesmo se não os deixarem – como Deco e Sanchez, cujas oscilações dependem quase exclusivamente de si e não da qualidade do trabalho de quem os persegue; existem ainda outros para quem a contundência dos choques, se não resvalarem para a agressão, servem de empolgamento, tornando-se ainda mais perigosos – como João Pinto, para quem levantar-se do chão faz parte do código genético; e ainda há aqueles que não jogam – como Jardel, que pede desculpa mas está em campo não para jogar, mas para marcar golos. No fim da lista está Mantorras, o menino de inspiração permanente, que, de facto, só joga quando o deixam, isto é, quando não o matam aos poucos, indignamente, durante hora e meia.

REGRAS – A questão começa num facto que não faz parte dos hábitos da I Liga: equacionar se todos os meios são legítimos para impedir alguém de jogar, partindo do princípio de que as leis são claras e o árbitro está lá para as fazer cumprir. O que Jaime Pacheco disse a Paulo Turra e a Pedro Emanuel, na tranquilidade da cabina e na posse de todos os dados em relação ao talento do angolano, foi simples e ao mesmo tempo complexo: Mantorras só tinha autorização para receber a bola de costas para a baliza e estava expressamente proibido de rodar, para ficar de frente para o golo, situação na qual é demolidor, independentemente da distância a que esteja da rede.

ASSOBIAR – Jaime Pacheco está inocente do espectáculo indecoroso que foi a forma como os defensores axadrezados impediram o ponta-de-lança benfiquista de jogar. Uma coisa é pedir atenção aos movimentos, estimular a capacidade de antecipar as intenções do adversário e exigir firmeza nos despiques, outra é a execução prática do plano. Pedro Emanuel pecou por excesso de zelo: cometeu faltas sucessivas, agarrou, puxou, rasteirou, desequilibrou e empurrou até ao limite da paciência do espectador, cumprindo a missão com o escandaloso beneplácito de um árbitro distraído. Um juiz que em vez de apitar com firmeza e fazer o que devia, assobiou para o ar, seguindo o (mau) exemplo de quase todos os seus colegas ao longo da época em situações do mesmo tipo.

CUMPLICIDADE – A meio da viagem, o campeonato regressa ao apelo da primeira jornada: "Deixem jogar Mantorras". Se em Agosto tudo pareceu exagerado e até descabido, apesar de mais empolado pelo momento de exaltação vivido na Luz, importa agora reconhecer fundamento à queixa encarnada. E se a culpa não é de Jaime Pacheco, também não é inteiramente de Pedro Emanuel, que apenas cumpriu escrupulosamente uma tarefa, beneficiando de um pequeno favor de Paulo Turra – deu-lhe 17' de descanso (o tempo que levou até ver o cartão amarelo) – e da cumplicidade do árbitro – que o deixou viver em paz os restantes 73', mais quatro de compensações. O crime não se elogia, mas pode servir de lição. A Argel, por exemplo, cuja obsessão em fomentar a picardia e fazer de lobo mau, em vez de jogar futebol com inteligência, escancarou a porta a Rui Lima para construir o lance do golo de Silva.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade