O epicentro da revolução

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1. Porque o futebol é um jogo de hábitos, feito de valores incutidos e assimilados, o tempo é um aliado do treinador. O estranho da mudança radical operada por Co Adriaanse não é ver o FC Porto assente numa ideia corajosa e refrescante, reclamando pela via mais nobre o estatuto de grande equipa. Estranho é que a alteração tenha acontecido a meio da viagem; que o líder ponha em causa seis meses de trabalho para, ao intervalo de um jogo, fazer regressar quase tudo ao princípio. Agora, para ter sucesso, o tempo volta a ser precioso: para que os jogadores entendam a proposta; consolidem cumplicidades na nova ordem; lubrifiquem a precisão de gestos técnicos e desempenhos tácticos. Prova disso mesmo, o FC Porto apontou 5 golos nos últimos 6 jogos, nos quais chegou a utilizar avançados em número idêntico ao dos cinco violinos.

2. Adriaanse encontrou em Paulo Assunção a peça vital para uma das posições chave do sistema e a resposta perfeita do brasileiro abreviou as etapas mais morosas. Na ideia original de Johan Cruijff, por exemplo, o número 10 também é determinante. Frente ao Benfica, o técnico portista atribuiu a função a Adriano e deu-lhe instruções para se encaixar em Luisão, promovendo o jogo a pares com a defesa encarnada; Cruijff teria escolhido Diego, Jorginho ou mesmo Lisandro para amarrar Petit e diminuir-lhe influência. Sabendo que dificilmente disporia de condições para tomar conta do jogo nos moldes que têm sido habituais, talvez fosse mais eficaz um jogo de toque paciente e criterioso, que permitisse definir os meios correctos para a agressão final.

3. Dúvida nenhuma de que o FC Porto é uma equipa de vocação atacante: quando perde a iniciativa ataca os adversários; quando reconquista a bola ataca a baliza. Em qualquer das fases, Paulo Assunção é indispensável, primeiro como coordenador da acção defensiva, depois como alicerce das constantes vagas em busca do golo. No clássico, também jogou como defesa (o sistema contempla essa eventualidade para a posição 4), revelando bom sentido posicional, eficácia nos despiques individuais, perfeita utilização do corpo, capacidade de antecipação e bom jogo de cabeça. Tudo certo, mesmo para quem assistiu ao seu primeiro golo como sénior, em 2002/03, num lance em que pegou na bola à saída da área do Nacional e percorreu o campo de uma ponta a outra até a deixar na baliza do Paços de Ferreira.

4. Paulo Assunção é o epicentro da revolução, o arquitecto que define as linhas mestras da movimentação colectiva. Tem neste FC Porto que navega contra a corrente o mesmo papel que Rijkaard desempenhava no Ajax campeão europeu em 1994/95, última referência ganhadora em 3x4x3 (e não 3x3x4). Mas nem Co Adriaanse tem os jogadores de Van Gaal (irmãos De Boer, Blind, Seedorf, Davids, Finidi, Litmanen, Kluivert, Overmars, entre outros), nem Paulo Assunção se pode comparar a um dos maiores talentos não ofensivos da história do futebol. Há onze anos, esse Ajax de sonho obedecia a uma construção sustentada; tinha ordem e era atrevido; unia-se à volta da bola e levava com orgulho a bandeira subversiva do talento. Venceu então a liga holandesa sem derrotas e marcou 106 golos em 34 jornadas. Apostar tudo no ataque serve para isso e não para outra coisa qualquer.

FLANCO DIREITO

Um prémio para a dignidade

Quando chegou a Alvalade, em 1999, Augusto Inácio tomou decisões que romperam com o passado e criaram condições para atingir o título. Foi o caso da reintegração de Afonso Martins, que constituiu mensagem de boa-vontade para dentro do grupo e reparou uma tremenda injustiça. Seis anos depois, Paulo Bento fez o mesmo com Hugo. É só para lembrar que as atitudes dignas também podem ser premiadas.

A sentença de Liverpool e FC Porto

Tem físico irreverente para a posição que ocupa – baixo, leve, rápido, ofensivo e dono de boa técnica. Léo representa a força dos especialistas no futebol moderno, porque faz tudo bem, nunca se engana nos caminhos, nem se desvia das obrigações. É defesa e assume os duelos; sabe dobrar os companheiros e não se deixa intimidar no seu raio de acção. Liverpool e FC Porto confirmaram que é um dos melhores laterais da Liga.

O teste ao génio

Scolari fez uma declaração peregrina segundo a qual o jogo com a Arábia Saudita definiria a chamada de Quaresma para o Mundial – ele e Hugo Viana estão nas mesmas circunstâncias, incluindo terem sido suplentes. Salvo melhor opinião, é ridículo que o melhor futebolista da Liga portuguesa 2005/06 tenha de convencer o seleccionador em breves instantes de um jogo que, à primeira vista, serve para nada, ao fim de meses seguidos mostrando que é um génio.

UM AMARELO, POR FAVOR

Há momentos assim: o jogador, por indicação superior, entra em campo com o objectivo de ver um cartão amarelo – cabe-lhe depois gerir o modo e o momento de cometer a infracção. Em Coimbra, Liedson cometeu pequena provocação sobre Pedro Roma, como que a pedir ao juiz para lhe resolver o problema. Olhando para a ficha do jogo até parece que o Levezinho foi perfeito: provocou um vermelho directo e viu o amarelo que desejava. O pior foi ter levado um murro entre uma coisa e outra. Para ser admoestado pelo árbitro também não é preciso tanto.

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