O espectáculo feito de paixão

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1 Apresentados como produtos menores, na sua maioria adquiridos em Lojas dos 300, os jogadores do V. Setúbal estão no centro de uma das mais incríveis histórias do futebol português; assimilados conceitos básicos como organização rígida, posicionamento irrepreensível e toda uma vasta gama de mecanismos colectivos indispensáveis, agem agora como o cidadão humilde a quem saiu o euromilhões das vitórias, dos pontos e do reconhecimento exterior. Como têm horizontes mais modestos e estão a superar as melhores expectativas, rejeitam a pressão que atrofia os outros; porque o único objectivo assumido é evitar a descida e estão no topo da tabela, guardados pela defesa menos batida da Europa, reagem sorridentes às recriminações alheias de que jogam sem ambição, com muita gente atrás da linha da bola.

2 Norton de Matos estabeleceu um vínculo com a cidade; assimilou os valores tradicionais do clube e recorreu a todas as armas para solidificar os laços afectivos com adeptos e jogadores. Na estreia tardia e arriscada na Liga portuguesa teve o bom senso, mas também a coragem, de recorrer à contundência de actos e palavras para definir regras de relacionamento institucional – de mentiras, promessas por cumprir, repressão, silêncios forçados e demais faltas de respeito tem o futebol a sua conta. Quando denunciou o inferno privativo em que o grupo vivia, o seu trabalho ganhou dimensão surpreendente: comprometera-se a fazer uma sopa instantânea só para matar a fome, transformou-se, a partir desse momento, num ícone absoluto da culinária nacional. Um feito que não está ao alcance de todos os cozinheiros.

3 Numa equipa necessariamente burocrática e estrita na proposta, treinador, jogadores e restantes elementos da equipa descobriram o paraíso onde se expressam na plenitude. Mesmo sabendo que a referência sentimental vitoriana assenta no futebol esplendoroso, que foi o legado inestimável de mestres Fernando Vaz e José Maria Pedroto; reconhecendo o peso da herança genial deixada por Jaime Graça, José Maria e, sobretudo, Jacinto João, este V. Setúbal sustenta uma vocação heróica notável, que o torna irreverente com a história. As tropas de Norton de Matos podem não respeitar a memória dessa estética deslumbrante, mas provam que a paixão também gera espectáculos fabulosos, ainda que mais tocados pelas emoções de esforço e superação do que pela sensibilidade das coisas belas.

4 Líder de um grupo unido pelos dramas da humilhação diária, pelos objectivos comuns de felicidade e pelo modo como todos assumem a condição de classe operária bem sucedida neste meio dominado por tirania, negócio e aparência, Norton apertou os torniquetes do rigor e foi hábil na construção de uma cooperativa sem privilégios. Que o orçamento mais baixo da Liga reconheça as suas limitações e lute apenas para sobreviver, é legítimo; que o faça como um exército de fé indomável, ambicioso e resistente a todas as adversidades, incluindo a praga indigna dos salários em atraso, chega a ser comovente; que esteja em 3º lugar, dois passos atrás do líder, é uma obra notável que contém as impressões digitais de um treinador competente, sensível, talentoso, bem formado, lúcido, conhecedor, inteligente…

Flanco direito

A IMPORTÂNCIA DO INTERMEDIÁRIO. É provável que o golo do Sporting frente ao FC Porto fique registado como erro grave de Pepe, aproveitado por Deivid. Mas é indigno ocultar a importância do intermediário que provocou as sensações mais fortes. Entre uma coisa e outra, Carlos Martins executou, de primeira, com o pé esquerdo, a longa distância, uma assistência sublime, na qual concentrou visão portentosa, simplicidade e execução perfeita. Lindo de se ver.

RESPONSABILIDADES DE UM CRAQUE. O Dragão escolheu Jorginho como alvo da revolta pelo que de mau acontece à equipa. O caso ameaça ser patológico, na medida em que, frente ao Sporting, o brasileiro fez mais do que o suficiente para fugir à ira popular. Jorginho é um jogador fabuloso, credor de admiração pelo modo como desafia a adversidade. Nunca se esconde e reclama sempre a posse da bola – é dessa matéria que são feitos os craques de verdade.

DAR-LHE CORDA UMA VEZ POR ANO. Se há quem precise de injecções semanais de confiança, a Mantorras basta dar-lhe corda uma vez para o ter apto a corresponder todo o ano. Tenha mais ou menos saúde, seja titular ou suplente, a sua motivação é inquebrável. Quando entrou nos Barreiros, afectado pela sensação de inutilidade que o acompanhava esta época, reinventou um cenário idílico: antecipou o erro alheio, acreditou, fez o golo e voltou a ser herói. Uma festa merecida para quem estava a criar rotina de mártir.

Real Madrid, Luxemburgo e Figo

Wanderlei Luxemburgo foi despedido e, se querem saber, o mais intrigante não foi vê-lo sair do Bernabéu pela porta dos fundos, mas tê-lo visto entrar como cientista do treino e regenerador de mentalidades – afinal, Pérez pretendia quem desse a cara por umas quantas patifarias, prova de que o brasileiro nunca passou de um capataz. E agora? O Real Madrid continuará a ser grandioso; Figo permanece como um dos melhores do planeta e Wanderlei vai para casa, de onde não devia ter saído. À espera que alguém lhe compre a banha da cobra que tem para vender.

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