O esplendor do mito eterno
1. Surgiu de repente, vai para dezassete anos, porque era preciso guarda-redes para actuar em Guimarães; do teste por exclusão de partes, que não se esgotou no dia da estreia, em Setembro de 1988, Vítor Baía saiu vitorioso por serenidade, confiança e insistência, enquadrado pela impressionante classe que nunca o abandonou. Agiu então como se estivesse a cumprir o destino que só ele conhecia, indiferente às notícias de que, algures na Europa, havia quem procurasse alternativa mais fiável ao inesperado colapso de Mlynarczik. Porque adaptou o talento às circunstâncias e enriqueceu o currículo com números expressivos, tornou-se uma figura de referência. Porque joga cada vez melhor e não pára de somar títulos, tornou-se um mito eterno. No FC Porto e no futebol português.
2. Um dos grandes méritos de Vítor Baía foi interpretar perfeitamente cada etapa da carreira: revelou maturidade precoce, como adolescente deslumbrado, no primeiro impacto com a fama; travou a tempo a exuberância prejudicial no período em que foi cobiçado por meia Europa; redescobriu forças, preservou o orgulho e pôs à prova a ambição quando o joelho maldito lançou o desafio do futuro incerto; aproveitou a entrada na veterania para seleccionar as melhores qualidades e acrescentar a experiência que o tempo refinou. Cumpriu afinal o trajecto comum aos maiores guarda-redes da história do futebol. Tal como esses parceiros na lenda das balizas, só depois dos 30 anos conjugou a plenitude das qualidades técnicas, tácticas, físicas e psicológicas.
3. Lev Yashin (considerado o maior de todos os tempos) tinha 37 anos no Mundial de 1966, exemplo de longevidade e talento que, nas últimas três décadas, abrange figuras inesquecíveis como Sepp Maier, Fillol, Zoff, Clemence, Dassaev, Pfaff, Van Breukelen, Schmeichel e Kahn. Em Portugal, João Azevedo foi baluarte do Sporting dos “Violinos” até aos 36 anos, os mesmos com que Manuel Bento arrasou no Europeu de 1984 – e só a fractura em Saltillo (1986) o impediu de jogar ao mais alto nível para lá dos 40. Carlos Gomes, outro membro da ilustre dinastia, jura que em 1966, aos 34 anos, vivia o melhor momento da carreira ao serviço do Meknés (Marrocos) – diz ele, com o desassombro do costume, que o exílio forçado custou a Portugal o título de campeão do Mundo. Já Vítor Damas abandonou, aos 41 anos, cansado de ser o melhor e de ouvir dizer que estava velho e acabado.
4. Vítor Baía mantém intocáveis os valores juvenis de agilidade, elegância, coragem e velocidade de reacção; pelo caminho aperfeiçoou argumentos adultos como simplicidade de processos, tranquilidade, segurança e sentido de eficácia. Porque o tempo o encheu de medalhas e um líder também se constrói pelo efeito que provoca nos outros, assumiu o comando absoluto da manobra defensiva do FC Porto, tarefa para a qual se apetrechou com saber, credibilidade, voz e inteligência. Aos 35 anos, que era a idade de Michel Preud’homme quando chegou a Portugal, Vítor Baía atingiu a expressão máxima como guarda-redes, dando seguimento ao ciclo iniciado em 2002. Com uma vantagem: ainda não deu o mais leve indício de ter entrado no último capítulo da história.
Flanco direito
O artista perdeu a memória
Juninho Petrolina teve actuação surpreendente com o FC Porto. Ao longo de 90', o brasileiro não encontrou elos de ligação com a equipa, desenquadrou-se do jogo e ainda perdeu a memória das coisas simples: a recepção, o passe lateral, a noção de entreajuda. Carvalhal defendeu-o da justiça popular e manteve-o em campo até final. Mas agora o descanso pode ser a única terapia capaz de o proteger.
Livre directo à Van Hooijdonk
A Académica recuperou a esperança da manutenção: venceu os dois últimos embates (Nacional e Gil Vicente), impulsionada por Marcel, o brasileiro goleador que veio da Coreia do Sul e está a mostrar credenciais. O tiro que decidiu o jogo de Barcelos constitui mesmo um sério aviso à navegação: quem remata daquela maneira, com tanta força e colocação, está apto a criar mais estragos até final da época. Desde os tempos de Pierre van Hooijdonk que não se via uma coisa assim na SuperLiga.
Um diamante com 20 anos
Emprestado pelo FC Porto, Bruno Moraes procurava o seu espaço no V. Setúbal, quando cometeu a leveza de marcar um "penalty" contra as ordens do treinador – e falhou-o duas vezes. O facto é que só depois da asneira mostrou quem é: um diamante com 20 anos, atacante formado na escola de Robinho e Diego (Santos), que tem futebol da cabeça aos pés. José Couceiro disse-lhe, que a gente bem viu, "comigo não jogas mais". Prova de que nem todas as palavras devem ser levadas a sério.
A teoria do cansaço foi pelos ares
As debilidades do físico, apresentadas como explicação de insucessos ao mais alto nível, são uma falácia que desvia atenções do que é verdadeiramente importante no futebol. Na Luz, uma das razões apresentadas para a quebra benfiquista na segunda parte frente ao V. Guimarães foi o desgaste do jogo com o CSKA – falso mas lógico. Em Leiria, o Sporting não se mexeu durante 45' e obrigou Ricardo a ser salvador; depois do intervalo, reagiu, cresceu e até podia ter ganho. Não sei se tiram a mesma conclusão mas, neste caso, lá foi a teoria do cansaço pelos ares.
