O estilo Cardozo
O golo é a vingança dos especialistas, daqueles que, sem talento para jogar como os deuses nem alma para lutar como os operários, são os heróis da comunidade que representam. Assente em perfil cansado, próprio de quem se distancia da ação e não tem interesse no que se passa em redor, Cardozo é uma bandeira de eficácia muitas vezes incompreendida; anda por ali com cara de menino bem comportado, incapaz de fazer mal a uma mosca, mas essa é, afinal, a estética preguiçosa de um temível assassino com pontaria sublime, a curta, média e longa distância. Há predadores assim: antes de aniquilarem a presa, normalmente a um toque, revelam-se gentis, contam histórias aos defesas, perguntam-lhes pela família, fazem-se amigos deles. Não devem ser levados a sério na ingenuidade que promovem mas pode ser fatal subestimá-los, mesmo quando a inércia e o jejum goleador atingem proporções inaceitáveis para quem se alimenta de números.
Tacuara faz o adepto resvalar para a convicção mentirosa de que serve para pouco ou nada. Passam-se minutos sem conta ao longo dos quais vive como peça solta da equipa e do próprio jogo, indiferente aos sinais de desinspiração que não raras vezes o aproximam da nulidade. Quando as bancadas desesperam e admitem como hipótese apertar-lhe o pescoço, ele responde com as armas de atirador implacável, acentuando a injustiça que é duvidar-se de quem passa a vida a pôr assinatura no momento mais aclamado e difícil do futebol. Sabemos então que o modo como recusa deixar-se pressionar pela intensidade dos acontecimentos o fortalece quando chega o momento de respirar fundo, decidir e executar. Oscar Cardozo pertence à estirpe dos pontas-de-lança que quanto mais sinais emitem de dispersão e alheamento mais perto ficam de pôr as coisas no lugar. A bola na baliza é apenas a mais importante de todas elas.
