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O exemplo do Boavista

A EXCELENTE época da equipa de futebol do Boavista não passa despercebida nem deixa indiferente quem se rege pelos mesmos princípios do êxito. De tal modo que há já quem combata com idênticas armas, assimiladas que foram algumas das teses que têm ajudado o clube axadrezado a guindar-se ao mais alto nível.

É neste contexto, indubitavelmente, que surge toda a recente polémica em torno das transferências de Rafael e Glauber, primeiro com o FC Porto a conseguir levar a melhor sobre o goleador, quase em cima da linha de meta, e depois com o presidente do Paços de Ferreira a encetar contínuos golpes de rins, ora dizendo que o “trinco” vai para o Bessa, ora sustentando que quer mais dinheiro, ora pedindo, menos de vinte e quatro horas depois, desculpa a João Loureiro.

É natural que haja interesse nos principais jogadores do Paços de Ferreira, como há cerca de um ano se verificou semelhante cenário em relação ao Gil Vicente, obviamente pelos mesmos motivos: a boa carreira no campeonato. Então, os galos de Barcelos perderam cerca de meia dúzia de titulares e agora lutam desesperadamente para conseguir a manutenção. Os pacenses ainda “só” vão nas três baixas: as duas já referidas mais Marco Paulo, de malas aviadas para o Restelo.

Tudo isto é mais natural se nos lembrarmos que esta vai ser, certamente, a semana decisiva do título. Ou seja, o Boavista tem em Vidal Pinheiro e no Salgueiros o último obstáculo a ultrapassar rumo à grande questão da época. A recepção ao D. Aves, na penúltima ronda, não se afigura assim tão problemática.

À falta de outros argumentos, Rafael e Glauber foram utilizados como fio condutor de uma polémica dirigida a um só destinatário. Ainda a tempo?

FIQUEMOS, então, com o exemplo do Boavista: se, por um lado, evidencia astúcia e bom senso na política desportiva, por outro deve servir de lição e de incentivo a alguns clubes, no sentido de que não é impossível combater o poderio, outrora inexpugnável, de Benfica, FC Porto e Sporting.

Não é de mais repetir, portanto, o que já várias vezes aqui disse: os axadrezados têm sido exímios no trabalho de prospecção e na contratação de talentos com provas já dadas no futebol português, preferindo esta certeza à aventura de ir buscar por buscar "craques" ao estrangeiro, sejam eles novos ou menos novos, latinos ou nórdicos, altos ou toscos.

Esta época mostra à saciedade a perfeição da aposta dos homens do Bessa, que apenas contrataram lá fora o defesa-esquerdo Erivan. Ao invés, veja-se o que muitos outros clubes fizeram, a começar no Benfica e Sporting, cujos reforços, mais ou menos conhecidos e salvo esta ou aquela honrosa excepção, nem ao de leve roçaram o estatuto de titulares.

O trabalho dos últimos anos deu no que se vê – o Boavista está à beira de ser campeão. E mesmo que, sobre a linha de chegada, venha a falhar a proeza, nada disso invalida o que aqui se tenta fazer passar.

É ALTURA, por conseguinte, de outros clubes procurarem seguir o exemplo dos boavisteiros. O Sp. Braga já deu um lamiré mas tem de o confirmar. E o Belenenses (não obstante arriscar-se no final desta época a perder perto de meia equipa), o V. Guimarães (considerando que o fantasma da despromoção vai às malvas) e até o Marítimo (presente na final da Taça de Portugal) não conseguem entrar nesta corrida? Paulatinamente que seja...

Não há segredo nem fórmulas mágicas. Tão-somente estabilidade directiva, rigor, trabalho e inteligência. Mais confiança. Muita confiança e não querer fazer tudo duma assentada. Se for necessário, "venda-se" um craque por ano e junte-se um pé-de-meia que permita ir buscar os tais valores emergentes que por aí cirandam mas que poucos vislumbram.

O Boavista prova que não é impossível. É difícil, muito difícil, mas não impossível. Um exemplo a copiar. Há por aí candidatos com coragem?
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