O extremo que dispensa a magia

Adicione como fonte preferencial no Google
O extremo que dispensa a magia
O extremo que dispensa a magia

O seu futebol não hipnotiza o espectador mas nenhum em Portugal como Salvio cumpre tantos requisitos indispensáveis para quem habita nas faixas laterais: uma relação perfeita com a equipa, com o jogo e com o espetáculo.

1 - Nem sempre os extremos correspondem à imagem de jogadores cujo talento se expressa pela forma como humilham adversários e encantam plateias ávidas de grandes encenações; muitos alimentam-se pelo impacto provocado por habilidades avulsas e pelo ruído de aprovação das bancadas que, muitas vezes, os desviam das obrigações assumidas com as instruções dos treinadores e o bem-estar dos companheiros. Devemos, porém, relativizar essas excentricidades nocivas, recordando que há contextos, países e clubes em que a bola é mais importante do que o futebol. Salvio recusa esse lado mais volátil de encarar o jogo e prefere ser um soldado com quem se pode contar sempre. E essa disponibilidade não tem preço – aos 22 anos, já poucos relevam os 12 milhões que o Benfica pagou por ele.

2 - Se o extremo é um eterno candidato a herói solitário, que se entrega a exercícios muitas vezes desenquadrados do jogo e dos interesses da própria equipa, Salvio abdica desse perfil teatral, por vezes chaplinesco, para ser um autêntico fenómeno. Faltam-lhe dotes para embriagar plateias com soluções milagrosas e nele não habita a eternidade de quem se impõe a tirar coelhos da cartola; o seu jogo não hipnotiza o espectador, não cria o assombro, antes adapta perfeição e instinto à eficácia com que desequilibra toda a espécie de balanças. O seu dom extravagante é saber jogar com qualquer dos pés; ser articulado com a bola a altíssima velocidade; cruzar com sublime precisão e ser deslumbrante a executar todas as ações de aproximação à baliza.

3 - Não sendo habilidoso, tem uma técnica fabulosa, à qual recorre em permanência. O modo como utiliza o corpo quando embala oferece uma garantia quase absoluta: adversário ultrapassado é um jogador a menos na história, porque dificilmente recupera a desvantagem a partir do momento em que fica para trás – para travá-lo, o defesa fica em situação na qual tem de cometer falta suscetível de sanção disciplinar. Segue então para outra etapa da caminhada, com a bola à frente e o adversário pelas costas, à procura de novo obstáculo para ultrapassar. Salvio depurou um estilo próprio, nunca se desviando das obrigações que tem como elemento do coletivo. À capacidade para galgar terreno com exercícios solitários junta a disponibilidade para jogar com os outros e avançar também à custa de ações participadas de progressão normalmente curta.

4 - Quando se faz à estrada, tem um plano para lá da solução comum que é inventar pelo caminho; por segurança, automatizou processos que o tornam menos dependente da inspiração; por temperamento, recusa o exibicionismo que caracteriza muitos dos que pisam os mesmos terrenos. É um futebolista soberbo, com argumentos individuais ilimitados, que limpou toda a superficialidade do disco rígido – a sua arte maior divide-se entre a gestão primorosa da velocidade, traduzida no modo como trava, arranca, acelera e muda de direção, e a técnica sumptuosa, expressa no estado mais puro. Sem a magia dos ilusionistas mais deslumbrantes, nenhum outro extremo em Portugal cumpre tão bem os requisitos indispensáveis a quem habita nas faixas laterais: uma relação perfeita com a equipa, com o jogo e com o espetáculo.

Varane quebrou todas as teorias

O temor perante os acontecimentos mais mediatizados nunca é totalmente educado

O tempo, no entanto, permite enfrentar melhor esses momentos de tensão máxima, pelo que a experiência desempenha papel importante na correta abordagem aos grandes espetáculos. Aos 19 anos, Varane quebrou todas as teorias. No clássico do Bernabéu arrancou um jogo perfeito perante Messi, Iniesta e companhia, confirmando indicações anteriores. Quando Sérgio Ramos terminar o castigo (e porque só Pepe é indiscutível), o lugar estará preenchido. Restará ao espanhol campeão do Mundo a lateral-direita ou o banco. Não é por embirração. É mesmo porque Varane joga dez vezes mais.

Jogo de Antunes foi reconhecido

Há muito preconceito em relação à qualidade de jogadores fora do círculo dos grandes

Veja-se o caso de Antunes que, aos 25 anos e depois de não ter vingado em Itália, assinou pelo Málaga, quarto da Liga espanhola e adversário do FC Porto na Champions. Antunes não é um talento esplendoroso mas é um defesa consistente, com argumentos técnicos e táticos apetecíveis, desde logo o tiro com o pé esquerdo. A transferência, por si, não faz do processo um êxito. A questão é que, uma vez mais, foi preciso vir gente de fora para valorizar alguém que estava a notabilizar-se num clube como o P. Ferreira. Sem que, por cá, esse mérito lhe fosse reconhecido como era justo.

Kléber precisa de desbloquear

Na vida de equipas e jogadores o divórcio pode ser a melhor decisão para reforçar o vínculo

Há jogadores que entusiasmam treinadores durante a semana e, depois, embaraçam-nos no jogo. É um processo difícil, porque quem decide possui informação vedada aos adeptos, que apenas conhecem pequena parte da história. Vítor Pereira confiou em Kléber muito para lá do que o jovem (22 anos) mostrou. Mas neste caso não é preciso ver treinos para confirmar o talento; basta recordar o que fez no Marítimo e, já agora, nalguns jogos de azul e branco. Para já, Kléber está a mais no Dragão e precisa de sair para desbloquear. Devia ter ido para o Sporting. Todos teriam ficado a ganhar.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade