Opinião

Paulo Teixeira Jurista/Consultor de Empresas

O FC Porto incomoda muita gente

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A arbitragem portuguesa atravessa um período particularmente delicado, não apenas pelas decisões discutíveis que têm marcado várias jornadas, mas também pela crescente desconfiança em torno do funcionamento do próprio sistema. Há necessidade de uma “revolução profunda”, tornando-se difícil pedir aos clubes e aos adeptos que aceitem todas as decisões de arbitragem como se fossem acontecimentos isolados e imunes a escrutínio.

É precisamente neste contexto que eu compreendo o comunicado emitido recentemente pelo meu Clube que tem denunciado aquilo que o mesmo considera um padrão de decisões prejudiciais ao nosso clube. Mas, este problema torna-se ainda maior quando a arbitragem passa a ser acompanhada por uma guerra de comunicação. Na semana de um clássico, no Estádio do Dragão, qualquer declaração, qualquer polémica antiga e qualquer decisão de arbitragem pode ser utilizada para criar um determinado ambiente à volta do encontro. E é precisamente aqui que alguns comentadores e figuras mediáticas parecem, na minha perspetiva, estarem a contribuir mais para aumentar a pressão do que propriamente, para esclarecer os adeptos.

Não se trata de defender que os meios de comunicação devem proteger o FC Porto de críticas, trata-se sim de exigir que a crítica seja feita com os mesmos critérios para todos, nomeadamente sem transformar suspeitas em certezas, nem procurar criar, antes de uma partida, uma narrativa que condicione árbitros, dirigentes, jogadores e a própria opinião pública.

No mais recente comunicado, o meu clube afirmou categoricamente que não nomeia árbitros, não participa no processo de nomeação e não interfere nas decisões do Conselho de Arbitragem. Aliás não tenho memória de há mais de uma década que o FC Porto tenha indicado nomes para qualquer dos órgãos federativos, e relembro também que o FCPorto, foi o único clube a defender a suspensão temporária do presidente do Conselho de Arbitragem (eu próprio já escrevi sobre esse assunto neste espaço), enquanto decorrem os esclarecimentos relacionados com os factos que estão sob investigação judicial, após a demissão de Duarte Gomes.

É precisamente por isso que na semana que antecede um FC Porto-Benfica exige-se uma responsabilidade redobrada. O clássico deve ser decidido pelos jogadores e pelas equipas técnicas, e não por uma batalha mediática construída nos dias anteriores.

Se por ventura existirem erros de arbitragem, estes devem ser analisados e criticados depois do jogo com base nas imagens e nos regulamentos. O que não pode acontecer é criar-se antecipadamente um ambiente em que qualquer decisão contra um dos lados seja imediatamente apresentada como confirmação de uma narrativa previamente construída. Isso não é defender a verdade desportiva, mas sim contribuir para a degradação da confiança num campeonato que já enfrenta demasiadas dúvidas.

O FC Porto tem, portanto, razões legítimas para exigir mais qualidade, transparência e coerência à arbitragem portuguesa, mas a resposta mais forte terá sempre de ser dada dentro do campo. A arbitragem deve ser independente, escrutinada e responsabilizada quando falha e os clubes devem poder contestar decisões sem serem automaticamente transformados em suspeitos, por outro lado, os agentes mediáticos devem perceber que têm também uma responsabilidade na forma como alimentam ou reduzem a tensão.

No Estádio do Dragão, num jogo desta dimensão, o futebol português precisa de árbitros preparados para decidir sem medo, jogadores concentrados em jogar e uma comunicação social capaz de analisar sem incendiar.

Um jogo desta natureza merece ser um verdadeiro clássico de futebol e não o episódio seguinte de uma guerra de narrativas que alguns fizeram começar muito antes da bola começar a rolar.

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