O feiticeiro de um sonho
1 Ao contrário de outros desportos que têm acompanhado o progresso da sociedade, o futebol continua a ser um jogo primitivo que mantém relação privilegiada com a pobreza e a privação. Sinais que o tempo e a tecnologia não adulteraram, na lista das maiores figuras de sempre do pontapé na bola os autodidactas sobrepõem-se aos produtos do ensino formal; como prova de simplicidade, o futebol deve muito a gente iletrada e, em certos casos, analfabeta, mas pouco ou quase nada à formação académica e aos pensadores que o consideram ao nível da teoria de Einstein. Mantorras é o exemplo perfeito de quem nasceu com uma paixão e soube aperfeiçoá-la com instinto; de quem cresceu ameaçado pela sobrevivência e enfrentou o espectro da derrota suportado numa só arma: o código genético.
2 Quando entra em contacto com a bola, dá início ao ritual de gestos bruscos mas harmoniosos que fazem apelo à inspiração. Os seus bailados exóticos despertam atenções, antecipam o perigo e denunciam os objectivos; porque essas danças servem para eliminar adversários e hipnotizar plateias, Mantorras é um génio assente no espírito de aventura e na ânsia de ser livre. A partir de intuição, habilidade, técnica, improviso, risco e velocidade de execução, desafia a lógica vigente e a ordem estabelecida – ele não sabe, mas tem perfil de revolucionário. Um dia, com a mesma inocência, viu a carreira presa por um fio. Respeitou, então, como sinal definitivo de inteligência, as regras conservadoras da Medicina – obediência, responsabilidade, disciplina e sacrifício.
3 Transformado em emblema da nostalgia imensa; na bandeira de uma esperança cada vez mais ténue e no exemplo de misericórdia pelo joelho que reagiu logo ao desleixo mas tardou em responder à ciência, Mantorras nunca perdeu de vista a força da magia negra. Aceitou representar a África de todos os amores mas também de muitas tragédias e pôs à prova a resistência ao infortúnio. Frente ao Marítimo, num jogo decidido ao cair do pano, monopolizou atenções, apropriou-se esmagadoramente dos festejos e assumiu o papel de feiticeiro de um sonho. No fim, ninguém se queixou, porque os golos de Mantorras não são apenas do Benfica. São golos de quem só frequentou a escola do sofrimento e utiliza o futebol para dar lições de vida.
4 Quando fez explodir aquele barril de pólvora com 60 mil pessoas dentro, mediu automaticamente a extensão do seu acto. A equipa readquiria privilégios na luta pelo título, enquanto ele, mártir de uma causa que se temeu perdida, recuperava o estatuto de herói no coração dos adeptos. O seu grito serviu apenas para reclamar um papel na longa-metragem encarnada; para celebrar a comovente vitória sobre dúvida e dor; para recuperar a memória da eterna paixão e o orgulho que as lágrimas não levaram. Porque na pureza do seu espírito não cabem sentimentos perversos e mesquinhos, naquele olhar inocente do menino que sempre será, Mantorras não transportava revolta, não exigia explicações, não tinha contas para ajustar. Apenas reclamava, ao fim de tantos meses a sofrer para dentro, o direito a ser feliz e voltar a ser amado.
Utilizar o futebol como lição de vida
No olhar inocente do menino que sempre será, Mantorras não transportava revolta, não exigia explicações, não tinha contas para ajustar. Apenas reclamava, ao fim de tantos meses de sofrimento, o direito a ser feliz e amado
Flanco direito:
O grande favorito à salvação
Luís Castro chegou a Penafiel nos primeiros passos da época, em substituição de Manuel Fernandes, que nem tempo teve para saborear o regresso à elite. Passados sete meses, um dos mais sérios candidatos à descida transformou-se num dos grandes favoritos a salvar a pele. Apesar dos golos de Wesley e do futebol de Clayton, ninguém apaga a ideia segundo a qual a explicação para o sucedido está, quase toda, no trabalho do treinador.
A voz do craque silencioso
Hélio foi dos jogadores mais injustiçados da sua geração, um craque silencioso para quem o destino foi cruel. O tempo também não ajudou: ontem, era um jovem com futuro brilhante; hoje, já é um veterano em fim da carreira. Na Madeira, fez o terceiro jogo da época e em 12’ concebeu o golo com que Jorginho matou o jogo e garantiu três pontos de ouro para o V. Setúbal. Ele sempre falou melhor com a bola nos pés.
Um verdadeiro fora-de-série
Bastou meia dúzia de jogos como titular para que Pedro Barbosa recuperasse a condição atlética, os níveis de confiança e a expressão absoluta de um verdadeiro fora-de-série. Ele é o capitão e a referência moral do Sporting que, no passado fim-de-semana, deu
grande demonstração de classe à custa de um futebol alegre e estimulante, feito de toque, movimento e conquista de espaço. Uma equipa feliz, que cumpre o conceito ideal: máxima liberdade possível para o mínimo de ordem indispensável.
Essa coisa a que chamam fracasso
Vítor Oliveira e Luís Campos saíram pelo próprio pé, ainda que empurrados por resultados aquém das expectativas e pelos lenços brancos que mascaram de paz o que é, afinal, a cobardia de quem os mostra e, pior ainda, de quem os leva a sério. Ambos partiram com dignidade, sem dizer disparates, prova de que Jorge Valdano sabia perfeitamente do que falava quando, em tempos não muito distantes, proferiu a seguinte frase: “O êxito torna-nos mais imbecis do que somos, razão pela qual tenho cada vez mais apreço por aquilo a que chamam fracasso.”
